2, Onde se analisa o «par divino» Arentius e Arentia

e da sua interpretação no contexto da religiosidade paleo-hispânica.

2014-03-01, por Frederico Muñoz

Este texto é uma adaptação de um trabalho feito no âmbito da disciplina de Religiões e Cultos Paleohispânicos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Este trabalho incide sobre duas divindades cultuadas na zona da Beira Interior de Portugal e Cáceres em Espanha que são consideradas um «par divino». É feito um levantamento de todas as fontes epigráficas existentes e uma análise dos vários factores possíveis de identificar e interpretar.


2.1, Introdução

Este trabalho debruça-se sobre duas divindades do panteão paleo-hispânico que têm a particularidade de constituírem o único testemunho conhecido de um possível «par divino» em termos do contexto mitológico das populações pré-romanas — e «possível» pois não é consensual que as dedicações a Arentius e Arentia indiquem de facto a existência de um par divino.

O objectivo essencial é o de produzir uma síntese sobre a temática que possa servir de actualização do «dossier» destas divindades, síntese essa que aborde não só as fontes mas também — ou principalmente — os vários modelos interpretativos existentes e que dizem respeito à caracterização de Arentius e Arentia em termos do seu posicionamento no panteão indígena e à própria definição dos «indígenas» que os cultuavam, isto dada a forma como a teonímia é utilizada para a construção de uma «geografia religiosa» ENCARNAÇÃO, José d’, apud SALVADO, 2004, p. 241. 1, algo que como se verá é consistentemente feito com base nos padrões de distribuição de certos teónimos, entre os quais se incluem Arentius e Arentia, para caracterizar um mundo arqueologicamente mal conhecido: o dos lusitanos e região da Beira Interior e prolongamento espanhol dessa região.

Adicionalmente, e de forma mais cautelosa, serão lançadas algumas pistas, sugestões, enfim, linhas de interpretação com maior ou menor sustentação que se destinam sobretudo a complementar a componente mais descritiva; como se verá mais à frente existe um histórico de mais de um século em termos de leituras de Arentius e a sua paredra (ou Arantia e o seu parédro — a diferença é subtil mas existe) pelo que dificilmente será aqui que algo verdadeiramente original será revelado.


2.2, Histórico da investigação

As primeiras inscrições dedicadas a Arentius e Arentia aparecem já nas «Religiões da Lusitânia» de Leite de Vasconcelos VASCONCELOS, Leite de, Religiões da Lusitânia, 1989, pp. 207-208. 2, sendo que se pode em geral considerar uma primeira fase na primeira metade do século XX, onde se identificou a existência de um par divino e se avançaram com os primeiros modelos interpretativos baseados na comparação com Fontanus e Fontana, uma segunda fase a partir dos anos 80 onde se nota uma revisão completa com base nas novas descobertas e também as novas direcções entretanto em voga nas várias obras de síntese entretanto produzidas, herdeiras em grande medida da obra de Antonio Tovar TOVAR, Antonio, Iberische Landeskunde, 1976. 3 e com um enfoque maior na componente alteuropäische TOVAR, Antonio, 1977. 4, e por último uma última fase, mais recente, onde as abordagens são variadas e enquadram-se de forma mais ou menos directa numa das várias correntes que se vão identificando de forma mais clara desde a segunda fase.

Estes três momentos foram obviamente sucedendo-se num crescendo de informação e obrigando a uma reanálise dos monumentos existentes à luz das novas descobertas; ainda assim o tempo não alterou significativamente algumas das características essenciais de Arantius e Arantia, como a sua limitação geográfica (como veremos mais à frente).


2.3, Língua, geografia, povos: os modelos teóricos

Antes de iniciar a descrição e análise dos vários testemunhos relativos a Arentius e Arentia, irei descrever o que, grosso modo, é o panorama actual em termos de abordagens para a reconstituição possível da Hispânia Pré-romana em termos religiosos, linguísticos e étnicos, começando logo por uma advertência comum: a ligação entre cultura, língua e etnia é algo cujas implicações metodológicas continuam a ser objecto de debate.

É neste contexto que se enquadram três principais possibilidades interpretativas dentro do mundo indo-europeu da Ibéria no qual se inserem UNTERMANN, Jürgen, 1965, p. 17. 5:

A língua hispânica ocidental como paleo-europeia:

o «lusitano» seria uma língua indo-europeia que evolui de forma autónoma a partir do que Krahe KRAHE, Hans, Unsere ältesten Flussnamen, 1964. 6, no seu estudo sobre a hidronomia europeia, designou de alteuropäisch e que como tal seria anterior à diferenciação dos vários grupos linguísticos. Enquadrável nesta perspectiva, pelo menos em parte, é a análise de Prósper PRÓSPER, Blanca Maria, 1999. 7 à inscrição do Cabeço das Fráguas e identificação de elementos alteuropäisch na mesma.

A língua hispânica ocidental como Celta/para-Celta/proto-Celta:

esta posição é defendida por Untermann UNTERMANN, Jürgen, 1985, p. 6. 8 e radica na forte relação onomástica que a região lusitano-galaica tem com o mundo celta, e também da perspectiva de que os particularismos do «lusitano» não servem de factor de exclusão (algo que encontra igualmente suporte em Evans EVANS, 1993, p. 598. 9), sendo o principal particularismo a manutenção do /p/ inicial e intervocálico, perdido em todas as línguas célticas (e.g. PIE *ph₂tḗr > PCelt *ɸatīr; *porkos > porcom vs. AIr orc). A forma como se valoriza este ponto parece ser o factor decisivo na classificação do lusitano GUERRA, Amílcar, 1998, p. 837. 10. O mesmo autor GUERRA, Amílcar, 1999, p. 188. 11 enquadra o «lusitano» numa realidade «...integrável no grupo céltico...» e Búa Carballo BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, pp. 203-204. 12 tem posição idêntica identificando a conservação do *p inicial como ponto de divergência, mas convergente nas evoluções *bh>b, *ǵh>g e *KrK>KriK. As diferenças são explicadas pelo carácter geograficamente extremo dos seus falantes.

images/arentius-arentia/untermann_mapaMapa de distribuição de topónimos -briga vs ilti/iltur/...(Untermann, Jürgen. 1965. Elementos de un atlas antroponimico de la Hispania antigua. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Cientificas, Inst. Español de Prehistoria [u.a.].)
A língua hispânica ocidental como indo-europeia de outro ramo:

esta é a posição de Tovar TOVAR, Antonio, 1985. 13 e, entre outros, de Hoz DE HOZ, Javier, 1997, pp. 564-569. 14, Schmidt, Gorrochategui e Villar GUERRA, Amílcar, 1998, pp. 834-837. 15, e é a maioritária. As razões aduzidas prendem-se essencialmente com a perda de /p/ inicial e intervocálico que para estes autores é, mais que uma marca de arcaísmo, algo que «...la hacen inequívocamente incompatible con la familia celta...» PRÓSPER, Blanca Maria, 2010, p. 66. 16. Evans EVANS, 1993, p. 597. 17 reforça a importância deste ponto e sintetiza as objecções de Gorrochategui (que não se limitam ao /p/ mas também nas mediæ aspiratæ, a partícula indi e a forma verbal doenti). As relações com o ramo itálico são defendidas por Prósper PRÓSPER, Blanca Maria, 2014. 18 e Curado CURADO, 1989, pp. 356-357. 19 sugere relações com o mundo latino e indo-iraniano. A análise à inscrição descoberta em Arronches leva Vallejo Ruiz VALLEJO RUIZ, José María, 2009, p. 283. 20 a declarar a discussão como encerrada por «...[no haber] ya grandes dudas de que el lusitano no pertenece al grupo de las lenguas celtas...». Recentes interpretações das inscrições em «língua lusitana» enquadram-se nesta tendência, como por exemplo Ribeiro RIBEIRO, José Cardim, 2013. 21 e o modelo comparativo com a religiosidade e vocabulários de matiz itálica.

Com esta explicação não quero obviamente dizer que exista algum tipo de imobilismo intelectual que conserve todas as opiniões dentro de um campo mais ou menos estático e cujas conclusões estão definidas a priori, longe disso. Apenas que são visíveis os modelos de fundo subjacentes a cada autor e que os mesmos determinam — e são determinados por — parte dos processos comparativos, por exemplo. A explicação de Villar VILLAR, Francisco, 2000, pp. 39-41. 22 sobre a «...inflación «raices acuosas»...» faz tanto mais sentido quando a sua obra é, de facto, marcada por uma tendência paleo-hidrográfica visível, ao contrário do que podemos observar por exemplo em Búa Carballo BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, passim. 23 com recurso frequente a comparações com o céltico arcaico.


2.4, As inscrições: localização e descrição

Existem neste momento treze aras putativamente dedicadas a Arentius e/ou Arentia, sendo que em duas das quais esta atribuição é substancialmente mais especulativa do que nas restantes; a tabela seguinte sistematiza a informação mais relevante.

LocalPaísDivindade masc.Divindade fem.EstatutoSexoPrimeira referência
MonsantoPortugalArentioPeregrinoFem.Vasconcelos, 1905
RosmaninhalPortugalArantio TaginiciaecoPeregrinoFem.Pereira, 1932
Ninho do AçorPortugalArentioArentiaPeregrinoMasc.Proença, 1907
OrcaPortugalArentio CronisensiPeregrinoMasc.Rocha, 1909
FerroPortugalArantio OcelaecoArantia OcelaecaPeregrinoMasc.Leitão, 1981
SabugalPortugalArentia EquotullaicensisPeregrinoMasc.Curado, 1984
CastelejoPortugalArantio EburobricisArantiae EvurobricisPeregrinoFem.Salvado, 2004
MoralejaEspanhaArentiumMelena, 1984
Cória (I)EspanhaArentio AmrunaecoArentiaPeregrinoMasc.Rodriguez Hernandez, 2009
Cória (II)EspanhaArentio AmrunaecoArentiaePeregrinoMasc.Rodriguez Hernandez, 2009
CerezoEspanhaArantio NiaetreoOlivares Pedreño, 2009
CillerosEspanhaArentio TedaicisArentia TedaicisPeregrinoMasc.Olivares Pedreño, 2013
VillamielEspanhaTetaecoOlivares Pedreño, 2013

O nome das divindades não é completamente imutável, notando-se uma alternância -E-/-A- na vogal intermédia BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 35. 24; para o mesmo autor a forma original é Arantia < *r̥nt-yH₂, todas as restantes grafias (e, possivelmente, fonemas) são derivados desta forma feminina original.

A distribuição das combinações existentes entre as diferentes formas dos teónimos pode ser analisada na seguinte tabela:

ArantioArentioArentiumausenteTotal
Arantia10001
Arantiae10001
Arentia03014
Arentiae01001
ausente22116
Total461213

Como se poderá comprovar pela listagem das localidades a distribuição das inscrições é razoavelmente limitada, percebendo-se o porquê de Alarcão ALARCÃO, Jorge de, 2001. 25 utilizar a distribuição da teonímia (e de Arantius e Arantia em particular) como marcador de traços culturais que dividiria os lusitanos em populi diferentes e comunidades étnico-culturais diferenciadas.

Para cada inscrição irá ser feita uma breve ficha, sem pretensões de ser exaustiva pois existem vários e detalhados levantamentos devidamente identificados FERREIRA, Daniela, 2012, apêndice descritivo; MARQUES, 2006 para as inscrições do conuentus scalabitanus. 26. A ligação à base-de-dados Hispania Epigraphica (do qual são usadas as imagens, sempre que possível) está também presente.Para este formato adoptou-se uma transcrição que mantém a quebra de linha, em substituição da mais comum marcação da mesma, por exemplo Arentio / Sunua / Camali F(ilia) / V(otum) S(olvit) L(ibens) M(erito)


2.4.1, Inscrição de Monsanto

Esta inscrição faz parte do conjunto das que são conhecidas há mais tempo, estando presente na «Hierologia Lusitana» GARCIA, José Manuel, Religiões Antigas de Portugal, 1991, p. 286, §5. 27, estando actualmente no Museu Nacional de Arqueologia FERREIRA, Daniela, 2012, p. 181. 28.

Local:

Chão do Touro (Idanha-a-Nova)

Descrição:

images/arentius-arentia/20031
HE 20031
Ara em granito de grão fino com capitel e fustes fracturados na base e decoração em todas as faces.

Leitura:
Arentio
Sunua
Camali F(ilia)
V(otum) S(olvit) L(ibens) M(erito)
Tradução:

Sunua, filha de Camilo, cumpre voto de livre vontade a Arêncio.

Comentário:

Em termos paleográficos a gravação é profunda, leitura clara, com altura das letras variável e com tendência para se ir reduzindo.

Observações:

O nome, indígena, Suna tem vários exemplos conhecidos da Península Ibérica, incluindo três na região de Idanha-a-Nova; a interpretação em Garcia (1991) é idêntica. Trata-se em qualquer caso de um peregrini quer pelo antropónimo, quer pela formação do nome com o patronímico em genitivo, quer pela própria rusticidade da ara.


2.4.2, Inscrição do Rosmaninhal

Outra inscrição da referida primeira fase, embora já um caso terminal pois foi descrita pela primeira vez em 1932 FERREIRA, Daniela, 2012, p. 184. 29.

Local:

Tapada da Ordem, Rosmaninhal (Idanha-a-Nova)

Descrição:

images/arentius-arentia/20033
HE 20033
Ara em granito de grão fino, bom estado de conservação, capitel com frontão. Campo epigráfico bem alisado e polido e sem moldura. Decoração em todas as faces.

Leitura:
Arantio
Tangini
ciaeco Avita
Vitalis f(ilia)
a(nimo) l(ibens) v(otum) s(olvit)
Tradução:

A Arâncio Tanginiciaeco, Avita, filha de Vital, cumpre o voto de livre vontade.

Comentário:

Gravação de leitura clara, utilização de terminadores em todas as hastes. Recursos a nexos e pontos de separação.

Observações:

Teónimo com a forma de Arantio. Nomes são comuns para o contexto provincial e ambiente peregrino. Epíteto tratado em separado mas as opiniões dividem-se entre ser de carácter toponímico ou antroponímico.


2.4.3, Inscrição do Ninho do Açor

Outra inscrição que desde cedo (1907) foi alvo de análise através do trabalho de Proença nas «Inscripções Romanas de Castello Branco», posteriormente incluída em Pereira (1934) PEREIRA, Félix Alves, 1934. 30.

Local:

Ninho do Açor (Castelo Branco)

Descrição:

images/arentius-arentia/20032
HE 20032
Ara em granito com falta de parte inferior (base e parte do campo epigráfico inferior), capital e frontão com dois toros.

Leitura:
Arentia et
Arentio Monta
nos Tangi
[ni f(ilius)]
Tradução:

A Arência e Arêncio, Montano, filho de Tangino.

Comentário:

Traço fino, leitura clara. Utilização de alguns nexos sem problemas de identificação ou ambiguidade.

Observações:

Endereça o «par divino». A falta da última linha permite mais possibilidade de interpretação dentro do campo da filiação em falta. Nome do dedicante está bem atestado na Península Ibérica mas é relativamente raro na zona onde foi encontrada a ara. O cognomen tem pelo contrário grande representatividade na região, sendo um nome indígena.


2.4.4, Inscrição da Orca

Também esta inscrição faz parte do núcleo original de monumentos relativos ao deus Arantius PEREIRA, Félix Alves, 1934, p. 284. 31, encontrando-se à guarda do Museu Municipal Dr. Santos Rocha (Figueira da Foz).

Local:

Ninho do Açor (Castelo Branco)

Descrição:

images/arentius-arentia/23442
HE 22442
Ara em granito de grão médio, capitel com fóculo e dois toros laterais. Campo epigráfico desgastado o que condiciona a leitura das últimas três linhas. Decorado em todas as faces.

Leitura:
Albinus
Proculi f(ilius)
Arentio Cro
nisensi ex vo
to Pisiri Noerc
aui s(olvit) m(erito) l(ibens)
Tradução:

Albino, filho de Próculo, a Arentio Cronosense cumpriu voto de livre vontade em nome de Pisiro.

Comentário:

Gravação superficial, primeiras duas linhas com caracteres maiores que as restantes. Desgaste dificulta leitura das últimas linhas. Utilização sistemática de nexos.

Observações:

Devido ao estado esta inscrição tem múltiplas leituras por parte dos diferentes autores. Epíteto endereçado em secção própria mas nota para a relação geralmente dada com Coronus.


2.4.5, Inscrição do Ferro

Esta inscrição foi descoberta nos anos oitenta do século passado, fazendo parte já de uma segunda fase de descobertas sobre esta temática FERREIRA, Daniela, 2012, p. 190. 32.

Local:

Quinta de Ribeiro do Moinho, Ferro (Castelo Branco)

Descrição:

Ara em granito muito deteriorado, sem base.

Leitura:
[R]ufus P
eicani
f(ilius) Arant
[i]a Ocela
[e]ca et A
rantio
[O]celaeco
[...] s(olvit) p(ossuit)
Tradução:

Rufo, filho de Peicano, a Arência e Arêncio Ocelaeco colocou o seu voto.

Comentário:

Traço profundo e leitura nítida, excepto última linha.

Observações:

Várias possibilidades possíveis para a última linha, todos dentro das fórmulas habituais. Presença de ambas as divindades. Rufus é cognomen bastante bem documentado, ao contrário de Peicani que é caso único. Epíteto tratado em separado, interpretações oscilam entre topónimo e etnónimo.


2.4.6, Inscrição do Sabugal

Parte de uma igreja, esta inscrição foi descoberta nos inícios dos anos oitenta e encontra-se ainda na fachada da Igreja de São João na Vila do Sabugal FERREIRA, Daniela, 2012, p. 192. 33.

Local:

Sabugal (Guarda)

Descrição:

images/arentius-arentia/22783
HE 22783
Sem moldura ou elementos decorativos, extremidades revestidas a cimento e apenas uma das faces é visível.

Leitura:
Arenti
ae Equo
tullaicen
si Nicer
Arconis (filius) [...]
[...]
Tradução:

A Arentia Equotulaicense, Nicer, filho de Arcão.

Comentário:

Dado o seu enquadramento na parede da Igreja apenas visível uma face. Última linha foi picada e não é legível.

Observações:

Primeira vez que a forma feminina aparece de forma isolada. Antroponímia é indígena com vários testemunhos na Península Ibérica. Epíteto tratado em secção específica (mas em geral associada a *ekkwo, cavalo, enquanto topónimo em associação com *tullo-, «acidente geográfico»).


2.4.7, Inscrição do Castelejo

Já parte das mais recentes aras descobertas, foi recuperada de uma propriedade privada em 2004, seguindo-se a primeira interpretação de Salvado SALVADO, João Ricardo, Um monumento votivo a Arância e Arâncio proveniente de Castelejo, 2004. 34. Encontra-se actualmente no Museu do Fundão.

Local:

Castelejo (Fundão)

Descrição:

images/arentius-arentia/25010
HE 25010
Fracturado mas ainda assim com 56 cm de altura, campo epigráfico de dimensões semelhantes ao fuste.

Leitura:
[A]ranti
ae et
Aranti
o Eburo
[b]ricis Pro
cula Albi
ni f(ilia) l(ibens) a(nimo) v(otum) s(olvit)
Tradução:

A Arância e a Arâncio Eburóbricos, Prócula, filha de Albino, cumpriu de livre vontade o voto.

Comentário:

Gravação pouco profunda, leitura dificultada. Tendência para alinhamento à esquerda. Letras iniciais ligeiramente apagadas. Traçado irregular.

Observações:

Conforme referido na análise ao epíteto trata-se de uma inovação a forma como o epíteto se encontra no plural. Prócula é nome abundantemente documentado na Ibéria e com grande representatividade na Beira Interior, tal como Albinus.


2.4.8, Inscrição de Moraleja

Trata-se de uma ara descoberta em território espanhol MELENA JIMÉNEZ, 1985. 35 e de que apenas disponho da informação da transcrição — a ara está fragmentada e em mau estado de conservação.

Local:

Moraleja (Cáceres)

Leitura:
Aren
tio sa
crum [...]
Observações:

Presença de Arentius apenas, embora o estado parcial da inscrição não afaste a hipótese de ser por falta do material original que poderia conter referência a Arentia.


2.4.9, Inscrição de Cória (I)

Estas aras foram descobertas em Cória por volta de 2003, tendo Rodriguez Hernandez RODRIGUEZ HERNANDEZ, 2009. 36 feito a apresentação e interpretação inicial dos achados.

Local:

Cória (Cáceres)

Descrição:

images/arentius-arentia/22155
HE 22155
Ara de granítico, com base. Inscrição numa das faces. Presença de fóculo.

Leitura:
Arentia
Arentio
Amru
naeco
Silo
Mani
v(otum) s(olvit) l(ibens) m(erito)
Tradução:

A Arência e Arêncio Amrunaeco cumpriu Silão, filho de Mano, voto de livre vontade.

Comentário:

Letras relativamente regulares. -E- formado por -II-, ligeiramente apagadas. Traçado irregular.

Observações:

Datação por volta do final do século II d.C. Epíteto analisado em separado. Curiosidade de ter onomástica latina, enquanto a outra ara, em tudo semelhante, tem onomástica indígena.


2.4.10, Inscrição de Cória (II)

Esta ara é em termos de forma idêntica à anterior — são descritas como «aras gémeas».

Local:

Cória (Cáceres)

Descrição:

images/arentius-arentia/22156
HE 22156
Idêntica à anterior.

Leitura:
Aren
tiae
Arentio
Amr[r]un(aeco)
Tanc(i)n(us)
Caturi
v(otum) s(olvit) l(ibens) m(erito)
Tradução:

A Arência e a Arência Amrunaeco cumpriu Tangino, filho de Caturo, voto de livre vontade.

Comentário:

Idêntica à anterior, apenas com a presença de um nexo na terceira linha.

Observações:

Onomástica indígena. Epíteto analisado em separado.


2.4.11, Inscrição de Cilleros

Esta ara foi a última a ser descoberta e a publicação e primeira interpretação de Olivares Pedreño OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2013. 37 são de 2013. Tratava-se de uma ara que estava a ser reutilizada na construção de uma habitação privada.

Local:

Cilleros (Cáceres)

Descrição:

Ara votiva em mármore rosa, topo e base removidos pelo reaproveitamento.

Leitura:
Arentia(e) (et) Arenti
(o) Tedaicis Ar
(a)ntonius
Pitalni f(ilius) v(otum) s(olvit)
l(ibens) m(erito)
Tradução:

A Arência e Arêncio Tedaico Arantónio, filho de Pitalni, cumpriu voto de livre vontade.

Comentário:

Caracteres actuários.

Observações:

Faltas de letras levam a exercício interpretativo mais arriscado, nomeadamente em Arantonius e Pitalni. Epíteto analisado em separado, mas dependente de existir uma correcta leitura.


2.4.12, Inscrição de Villamiel

Com base na leitura da ara anterior e na identificação do epíteto Tedaicis, o autor faz uma releitura de uma peça entretanto desaparecida.

Local:

Villamiel (Cáceres)

Descrição:

Desenho feito em 1909 é a base para a interpretação possível.

Leitura:
[-]I[-]M
deo Te
tae [co]
Tradução:

[...] Deus Tetaeco.

Observações:

Autor baseia a sua proposta no ser muito raro existirem epítetos apelativos idênticos para divindades diferentes no território peninsular.


2.5, Os cultuantes

A informação até à data aponta para uma realidade indígena, com datações entre o I e o III século d.C. Adicionalmente a maior parte dos nomes insere-se bem na realidade mais especificamente igaeditana OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, Los dioses de la Hispania céltica, 2002, p. 29. 38.

A distribuição das dedicações conforme o sexo do cultuante não revela nenhum padrão específico, como se pode verificar na seguinte tabela:

ArantioArentioArentiumausenteTotal
(indeterminado)10113
Fem.21003
Masc.15017
Total461213

Não é possível detectar nenhum padrão específico em termos de devotos homem/mulher, tendência que se confirma igualmente ao analisar a distribuição das formas femininas do teónimo.


2.6, Os epítetos


2.6.1, Amrunaeco

Epíteto presente nas duas aras de Cória e aplicado exclusivamente a Arentius (apesar de nestas aras Arentia ser também evocada). Rodriguez Hernandez RODRIGUEZ HERNANDEZ, 2009, pp. 124-125. 39 relaciona-o com *ambrom < *amrum, sendo portanto uma forma primitiva que os autores relacionam com um substrato «mediterrânico ocidental». Prósper PRÓSPER, Blanca Maria, Lusitano y celtibérico, 2002, pp. 103-107. 40 identifica nesta forma uma referência ao rio Ambroz, logo um hidrónimo que dá o nome aos Ambrones e que a autora consequentemente nota ser um possível indicador da presença de tribos do norte da península itálica (incluídos os lígures) na Península Ibérica — note-se que Blanca Prósper propõe em geral uma maior afinidade do «lusitano» com as línguas itálicas do que celtas, embora a leitura de Búa Carballo BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 35. 41 (que seguindo a linha de Untermann não descarta a celticidade da língua que denomina de «hispânico ocidental») seja também de uma origem em *Amrum- + *aiko, um hidrónimo.

É assim um epíteto relacionado com um rio, ou um topónimo que teve como origem um etnónimo (ou vice-versa).


2.6.2, Croenisensi

Olivares Pedreño OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2002, pp. 155-156. 42, na sua obra de síntese, descreve o epíteto como referindo-se a um lugar (e que seria perto do local onde a ara foi encontrada), dando seguimento a uma interpretação que vem desde o início do século XX quando Santos Rocha avançou com a possibilidade de ser um indicador étnico ou geográfico, tendo mais recentemente José de Encarnação retomado a ideia de que o topónimo original seria Coronisensis, relacionando-o com o antropónimo Coronerus e o possível teónimo Coronus FERREIRA, Daniela, 2012, p. 189. 43. Búa Carballo BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 36. 44 também refere uma origem em *krono- e Blázquez BLÁZQUEZ, José María, 2006, p. 210. 45 faz exactamente a mesma referência, acrescentando Nabia Corona e a possibilidade de se poder tratar do rio Corona, afluente do Sado.

Sendo que a leitura deste ex voto oferece algumas dúvidas, é ainda assim consensual que este epíteto se refira a um topónimo ou talvez um hidrónimo.


2.6.3, Equotullaicensis

Epíteto presente na inscrição do Sabugal dedicado a Arentia. Búa Carballo BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 71. 46 relaciona-o com *ekkwo (cavalo), e Prósper PRÓSPER, Blanca Maria, 2002, pp. 120-121. 47 com a forma *Ekwo-tull-aiko-, sendo *tullo- um acidente geográfico (plano, vale, colina, etc.) — a mesma leitura que faz Blázquez BLÁZQUEZ, José María, 2006, p. 211. 48.

O sufixo e a forma permitem que se aponte uma origem geográfica a este topónimo, sendo que Alarcão ALARCÃO, Jorge de, 2001, p. 316. 49 coloca a hipótese de se tratar do castellum do Sabugal.


2.6.4, Eburobricis

Na ara encontrada no Castelejo o epíteto encontra-se no plural — o que é raro — concordando portanto com ambas as divindades SALVADO, João Ricardo, 2004, p. 241. 50. O sufixo e a formação são relativamente comuns e apontam para um epíteto relativo a um topónimo BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 23. 51, sendo que neste caso se pode comparar com a conhecida Epígrafe de Talaván (Munidi Eberobrigae Toudopalandaigae) e cuja terminação em *brig (e sobre este sufixo cf. Guerra GUERRA, Amílcar, 1998, pp. 684-702. 52 relativamente às variantes e também à sua utilização enquanto marcador linguístico indo-europeu) pode indiciar a existência de um povoado *Eburobris ou *Eburobrig (< *eburo, «teixo»). Encarnação ENCARNAÇÃO, José d’, 2008, pp. 109-111. 53 concorda com os autores e, citando Guerra, relembra que *eburo é muito difundida na onomástica celta e considerada exactamente «um elemento característico do celtismo nas línguas peninsulares».

Temos assim um epíteto toponímico aplicado a ambas as divindades.


2.6.5, Niaetreo

Olivares Pedreño OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2009, pp. 196-198. 54 propõe este epíteto com base na sua leitura, embora refira que também é possível ler-se Arantoniaetro, remetendo para o antropónimo Arantonius largamente documentado. O autor não fornece uma etimologia ou explicação para o epíteto, podendo presumir-se pelo seu argumentário que deverá ser um topónimo.

As dificuldades de leitura e interpretação tornam este caso semelhante à inscrição de Cascais vulgarmente lida como Araco Aranto Niceo e que Guerra GUERRA, Amílcar, 2002, p. 64. 55 propõe ser de facto Aronioniceu; nesse sentido este epíteto deve ser considerado sub judice, tal como de resto a própria identificação desta inscrição com Arantius.


2.6.6, Ocelaeci

Os epítetos Ocelaeco e Ocelaeca estão presentes na ara do Ferro GUERRA, Amílcar, 2007, p. 167. 56. Para Búa Carballo este epíteto decompõe-se em *okelo + *-ayiko, sendo o sufixo muito comum em epítetos derivados de nomes de lugar e *okelo significando pico ou alto. Prósper PRÓSPER, Blanca Maria, 2002, p. 110. 57 vai um pouco mais longe e equivale o termo ao latino oppidum, o que de facto confirma a origem toponímica deste epíteto ao mesmo tempo que permite a Guerra GUERRA, Amílcar, 2007, pp. 169-170. 58 rever a distribuição proposta por Alarcão ALARCÃO, Jorge de, 2001, p. 303. 59 em termos das várias divisões suprafamiliares e identificar os Ocelenses Lancienses de Plínio com os Lanciensis Oppidani.

Desta forma temos que se trata de um epíteto relativo a um lugar.


2.6.7, Tanginiciaeco

Presente na inscrição do Rosmaninhal, Prósper PRÓSPER, Blanca Maria, 2002, p. 107. 60 vê-o como um epíteto que apesar de parecer, à primeira vista, referir-se a um antropónimo Tanginus — bem atestado no ocidente peninsular — deve ter como origem um topónimo que é ele sim a origem do antropónimo. Posição diferente tem Olivares Pedreño OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2002, p. 155. 61 que considera que se trata de uma forma de divindade protectora de um indivíduo e sua família — logo, de carácter tutelar.


2.6.8, Tedaicis

Proveniente da ara mais recentemente encontrada e aplicado a Arentius e Arentia (tal como no caso de Eburobricis encontra-se no plural), Olivares Pedreño OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2013, p. 197. 62 remete para a raíz indo-europeia *tata-, *tēta relacionada com parentalidade e, mais genericamente, com o conceito de família, tendo origem na vocalização de expressões infantis FERREIRA, Daniela, 2004, p. 350 — paralelo com Amma, que terá como base *ami, balbuceio infantil que passa a significar «mãe». 63. Esta explicação segue o motivo defendido pelo autor para Arentius/Arantia e que se baseia numa classificação enquanto divindade(s) tutelares associadas a famílias ou grupos, genericamente descrita como uma «divindade comunitária de carácter tutelar e guerreiro» FERREIRA, Daniela, 2004, p. 193. 64.

Este epíteto levou os autores a revisitarem outra ara, actualmente desaparecida mas conhecida e descrita desde os inícios do século XX e tendo como origem Villamiel, Cáceres, que interpretam como tendo escrito Deo Tetae[co], i.e. um dativo singular do dativo plural Tetaedis OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2013, pp. 199-200 — os autores frisam a natureza incerta desta proposta e da necessidade de uma análise crítica cuidada. 65. O epíteto seria assim um epíteto qualificativo da sua função tutelar, ligada ao conceito de protecção e de salus.


2.7, O par divino: caminhos interpretativos

Chegados aqui chegou o momento de abordar a questão de Arentius e Arentia de forma mais directa, e para isso atacar duas questões essenciais: a natureza do «par divino», expressão muito usada mas que não é aceite por todos, e — e a partir daqui — apresentar o modelo interpretativo principal e uma abordagem alternativa, que quanto mais não seja poderá ter o mérito de servir de validação à teoria principal.


2.7.1, Par divino?

A classificação como «par divino» é algo que vem desde o princípio da análise, como já foi referido, sendo proposto por Leite de Vasconcelos. Esta ideia continua até aos dias de hoje com Rodriguez Hernandez RODRIGUEZ HERNANDEZ, 2009, pp. 128-130. 66 a caracterizá-los como «pareja divina» ou «divindade gémelas» e Olivares Pedreño OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 1999, pp. 144-146. 67 foca a sua análise no princípio de se estar perante um par divino de forma a poder encontrar paralelos que ajudem na difícil tarefa de conseguir caracterizá-los (este «paralelo gaulês» será analisado infra). É especialmente focada a existência de epítetos no plural, i.e. epítetos que são igualmente aplicados a ambos.

Posto isto, existe quem discorde do conceito em geral e na sua aplicabilidade a Arantius e Arantia em particular; pegando na questão dos epítetos, Encarnação ENCARNAÇÃO, José d’, 2008, pp. 109-110. 68 aceita o carácter toponímico de Eburobricis mas afirma que não reconhece por causa disso nenhum par divino, mas sim um só deus venerado na sua vertente masculina e feminina. Explorando um pouco mais o tema ENCARNAÇÃO, José d’, 2010, pp. 133-144. 69, o autor avança com a proposta de não existirem verdadeiramente duas divindades mas sim dois aspectos — feminino e masculino — de uma só divindade, algo que se verificaria não só com Arentius/Arentia mas com Bandis e seus epítetos, por exemplo, bem como Liber/Libera.

A quantidade de informação disponível não ajuda à chegada de uma conclusão; para tentarmos fazê-lo é preciso ainda explorar um pouco mais fundo e interrogar as próprias raízes dos nomes e esperar uma resposta.


2.7.2, A via aquática: hidronomía e o par divino

A maioria dos autores vê em Arantius e Arantia divindades aquáticas ou, pelo menos, divindades cujo nome é relacionado com uma «camada» que já aqui foi descrita que se relaciona com a componente alteuropäische de Krahe: segundo de Hoz DE HOZ, Javier, 2010, pp. 571-575. 70 esta «hidronimia antigo-europeia» explica a existência de palavras como Palantia (sem queda do /p/) e outras que entrocam nesse mundo, exactamente como Arantius, que é divindade de raíz aquática por inerência do seu nome. Villar VILLAR, Francisco, 1991, pp. 498-502. 71 não descarta os lusitanos — e lembremos-nos que a área de culto de Arentius e Arentia é a que normalmente é associada aos lusitanos — como agentes de introdução de parte dessa componente indo-europeia, mas não celta, na península ibérica.

images/arentius-arentia/alteuropeMapa de raízes hidronímicas *al-,*alm- de Hans Krahe (Wikimedia Commons)

Prósper PRÓSPER, Blanca Maria, 2002, pp. 98-102. 72 é inequívoca na forma como relaciona com o substrato «velho-europeu», dando como raíz possível *arant-yā e referindo-se a um hidrónimo espalhado por toda a Europa e a uma ideia de «movimento» própria da forma *-nt-; a origem nesse alteuropäische é também avançada por Búa Carballo BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 37. 73, que dá como exemplos Erenz < *Arantia, mas aqui com a nota que embora muito usado em hidrónomos o significado é mais abrangente: alterar, modificar, movimentar violentamente.

Retendo esta última nota fica claro que o consenso etimológico passa pela associação à linguagem hidronómica da Velha Europa, conceito que não deixa ele próprio de ser fluído o suficiente.


2.7.3, O paralelo gaulês

Não completamente separado das raízes aquáticas, Olivares Pedreño OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 1999. 74 vai avançar por um caminho paralelo com interesse: vendo que existe relativo consenso em termos da etimologia do «par divino» a verdade é que a informação adicional que daí se pode retirar não é grande, razão pela qual vai proceder a um estudo comparativo com uma região da Gália que também teve uma presença consistente de pares divinos: a tentativa é ultrapassar a classificação como «deuses tutelares», que é reconhecidamente uma categorização que muitas vezes é feita pela negativa dada a sua extrema abrangência.

Tendo como base a existência de padrões comuns no mundo céltico (o que, como já foi referido, é um pressuposto que acarreta um alinhamento teórico pré-determinado) avança com a proposta de Arentius ser aproximado a Apolo ou Mercúrio, divindades que mais frequentemente na Gália são associadas a uma paredra.

A abordagem é interessante e o resultado parece articulável com a proposta de uma dimensão soberana para Quangeius OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 1999, p. 154. 75, mas existem pelo menos duas objecções que convém ter em conta:

  1. A referida necessidade de um paralelo cultural; mesmo assumindo que existe um quadro mental semelhante que deriva das raízes culturais comuns (celtas ou mais genericamente indo-europeias) as diferentes evoluções podem fazer o que é superficialmente idêntico algo com raízes substancialmente diferentes.
  2. A definição de paredra e par divino; Pedreño seleccionou pares como Apolo e Sirona, mas nada garante que o processo religioso e cultural que dá origem a pares divinos que partilham a mesma raíz etimológica não é totalmente diferente de duas divindades formarem um par.

2.7.4, Cerus e Ceres, um caminho possível?

Começando por aqui, e indo buscar referência a uma Roma Arcaica, uma exploração do conceito de «par divino» é essencial. Lipka LIPKA, Michael, Roman Gods: A Conceptual Approach, 2009, pp. 141-142. 76 refere que existem vários exemplos de pares divinos (Liber/Libera, Ceres/Cerus, Faunus/Fauna, etc.) mas que têm origem não por razões genealógicas mas sim de fertilidade, remetendo para uma sociedade arcaica de grande ligação telúrica — curiosamente esta concepção de divisão sexual por questões de fecundidade não é estranha à objecção de José d’Encarnação referida acima.

Diz-nos também que não existe simetria na proeminência de cada divindade, e refere em especial Cerus/Ceres como exemplos desta associação divina com claras raízes romanas, presente que estava no Hino Sálico.

Ceres tem como origem *ker-, «crescer, alimentar» SPAETH, 2010, p. 33. 77; já Cerus, partilhando a mesma raíz, é apelidado de Cerus Manus no hino sálico, o «bom criador» que Dumézil DUMÉZIL, Georges, Archaic Roman Religion, 1966. 78 vê como o princípio de Janus; temos pois aqui um par divino, ligado à abundância, sim, mas também à criação e a ritos fundacionais, aos princípios e aos ritos de passagem.

Recuperando a observação de Búa sobre a etimologia por de trás de Arantius e Arantia podemos observar que, e dentro da temática de Ceres, se pode relacionar com o latim aro < *h₂erh₃.


2.8, Conclusão

As descobertas recentes aumentaram o que se conhece sobre Arentius e Arentia, vindo confirmar alguns pontos essenciais:

  1. As inscrições continuam a aparecer numa zona restrita, muito ligada aos igaeditanus, o que pode confirmar o papel destas divindades na construção de uma paisagem religiosa que por inerência permita uma reconstituição das realidades humanas e sociais.
  2. Os epítetos aumentaram em número e são variados; tendem para uma relação com topónimos e/ou antropónimos.
  3. Não existe relação aparente entre sexo ou estatuto social e a forma como os ex votos são realizados.
  4. A origem etimológica das divindades é maioritariamente considerada residir no mundo «velho europeu» dos hidrónimos de Krahe.
  5. Existem possíveis paralelos que remetem para crescimento, arar, e aqui um possível paralelismo com Ceres/Cerus.

Este exercício final, conforme claramente enunciado no início, tem como objectivo mais o aguçar de métodos e formas de análise do que outra coisa qualquer; não é claro que se possa fazer, com a parca informação que se tem sobre o «par divino» Arentius/Arentia, este tipo de exercício — e se se poder é muito possível que a linha de raciocínio se tenha perdido de forma irremediável.

É um risco que vale a pena ser corrido, pois para se saber quando se chegou a uma conclusão certa é preciso ter a experiência suficiente de quem conhece as erradas — e tal como Janus tem dois rostos também neste trabalho a abordagem foi fazer um trabalho de recolha o mais exaustiva possível de forma a actualizar a «pasta» de Arentius e Arentia, mas também usar esses dados para construir cenários que permitam uma melhor compreensão da sociedade paleo-hispânica.


Notas de rodapé

(1)

ENCARNAÇÃO, José d’, apud SALVADO, 2004, p. 241.

(2)

VASCONCELOS, Leite de, Religiões da Lusitânia, 1989, pp. 207-208.

(3)

TOVAR, Antonio, Iberische Landeskunde, 1976.

(4)

TOVAR, Antonio, 1977.

(5)

UNTERMANN, Jürgen, 1965, p. 17.

(6)

KRAHE, Hans, Unsere ältesten Flussnamen, 1964.

(7)

PRÓSPER, Blanca Maria, 1999.

(8)

UNTERMANN, Jürgen, 1985, p. 6.

(9)

EVANS, 1993, p. 598.

(10)

GUERRA, Amílcar, 1998, p. 837.

(11)

GUERRA, Amílcar, 1999, p. 188.

(12)

BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, pp. 203-204.

(13)

TOVAR, Antonio, 1985.

(14)

DE HOZ, Javier, 1997, pp. 564-569.

(15)

GUERRA, Amílcar, 1998, pp. 834-837.

(16)

PRÓSPER, Blanca Maria, 2010, p. 66.

(17)

EVANS, 1993, p. 597.

(18)

PRÓSPER, Blanca Maria, 2014.

(19)

CURADO, 1989, pp. 356-357.

(20)

VALLEJO RUIZ, José María, 2009, p. 283.

(21)

RIBEIRO, José Cardim, 2013.

(22)

VILLAR, Francisco, 2000, pp. 39-41.

(23)

BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, passim.

(24)

BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 35.

(25)

ALARCÃO, Jorge de, 2001.

(26)

FERREIRA, Daniela, 2012, apêndice descritivo; MARQUES, 2006 para as inscrições do conuentus scalabitanus.

(27)

GARCIA, José Manuel, Religiões Antigas de Portugal, 1991, p. 286, §5.

(28)

FERREIRA, Daniela, 2012, p. 181.

(29)

FERREIRA, Daniela, 2012, p. 184.

(30)

PEREIRA, Félix Alves, 1934.

(31)

PEREIRA, Félix Alves, 1934, p. 284.

(32)

FERREIRA, Daniela, 2012, p. 190.

(33)

FERREIRA, Daniela, 2012, p. 192.

(34)

SALVADO, João Ricardo, Um monumento votivo a Arância e Arâncio proveniente de Castelejo, 2004.

(35)

MELENA JIMÉNEZ, 1985.

(36)

RODRIGUEZ HERNANDEZ, 2009.

(37)

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2013.

(38)

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, Los dioses de la Hispania céltica, 2002, p. 29.

(39)

RODRIGUEZ HERNANDEZ, 2009, pp. 124-125.

(40)

PRÓSPER, Blanca Maria, Lusitano y celtibérico, 2002, pp. 103-107.

(41)

BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 35.

(42)

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2002, pp. 155-156.

(43)

FERREIRA, Daniela, 2012, p. 189.

(44)

BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 36.

(45)

BLÁZQUEZ, José María, 2006, p. 210.

(46)

BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 71.

(47)

PRÓSPER, Blanca Maria, 2002, pp. 120-121.

(48)

BLÁZQUEZ, José María, 2006, p. 211.

(49)

ALARCÃO, Jorge de, 2001, p. 316.

(50)

SALVADO, João Ricardo, 2004, p. 241.

(51)

BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 23.

(52)

GUERRA, Amílcar, 1998, pp. 684-702.

(53)

ENCARNAÇÃO, José d’, 2008, pp. 109-111.

(54)

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2009, pp. 196-198.

(55)

GUERRA, Amílcar, 2002, p. 64.

(56)

GUERRA, Amílcar, 2007, p. 167.

(57)

PRÓSPER, Blanca Maria, 2002, p. 110.

(58)

GUERRA, Amílcar, 2007, pp. 169-170.

(59)

ALARCÃO, Jorge de, 2001, p. 303.

(60)

PRÓSPER, Blanca Maria, 2002, p. 107.

(61)

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2002, p. 155.

(62)

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2013, p. 197.

(63)

FERREIRA, Daniela, 2004, p. 350 — paralelo com Amma, que terá como base *ami, balbuceio infantil que passa a significar «mãe».

(64)

FERREIRA, Daniela, 2004, p. 193.

(65)

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 2013, pp. 199-200 — os autores frisam a natureza incerta desta proposta e da necessidade de uma análise crítica cuidada.

(66)

RODRIGUEZ HERNANDEZ, 2009, pp. 128-130.

(67)

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 1999, pp. 144-146.

(68)

ENCARNAÇÃO, José d’, 2008, pp. 109-110.

(69)

ENCARNAÇÃO, José d’, 2010, pp. 133-144.

(70)

DE HOZ, Javier, 2010, pp. 571-575.

(71)

VILLAR, Francisco, 1991, pp. 498-502.

(72)

PRÓSPER, Blanca Maria, 2002, pp. 98-102.

(73)

BÚA CARBALLO, Carlos, 2000, p. 37.

(74)

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 1999.

(75)

OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos, 1999, p. 154.

(76)

LIPKA, Michael, Roman Gods: A Conceptual Approach, 2009, pp. 141-142.

(77)

SPAETH, 2010, p. 33.

(78)

DUMÉZIL, Georges, Archaic Roman Religion, 1966.


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