Vejo que gostas de viagens e aventuras e eu preciso de homens dispostos a correr o mundo. Pois os meus negócios todos os dias aumentam e procuro associados que me possam ajudar. Chegou o tempo das navegações, começou uma era nova e os homens capazes de empreendimento podem agora ganhar fortunas fabulosas. Associa-te comigo. Viajarás nos meus navios. E talvez mesmo um dia possas navegar para o Sul, para as novas terras, nas caravelas dos portugueses.
No contextoEste texto tem como base trabalho feito no contexto da disciplina de História Moderna e da Expansão Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; foi adaptado ao meio digital, tendo-se mantido a maior parte das referências. da leitura da «Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné» de Gomes Eanes de Zurara, o Capítulo LRIV descreve um encontro com um cavaleiro dinamarquês, Valarte. É sobre este curioso encontro que escrevo aqui.
Tudo foe prestes muyto asinha, e aquelle scudeiro, que se chamava Vallarte, metido em seu navyo, e com ele huũ cavalleiro da ordem de Xpõ, que se chamava Fernandaffonso, que era criado e feitura do Iffante
Este trabalho parte da análise de um único capítulo da «Crónica do Descobrimento e Conquista da
Guiné» de Gomes Eanes de Zurara
Crónica do
Descobrimento e Conquista de Guiné, capa que contém o relato das aventuras (e desventuras,
incluíndo o final trágico) de um nobre dinamarquês, Valarte, que embarca numa expedição para a
«...terra dos Negros...» movido pelos relatos que ouviu e pelo espírito de cavalaria que é todo um
espírito de uma época. Esta análise não pode, contudo, ser feita de forma isolada do contexto
histórico e nesse sentido serve também como ponto de partida para uma análise mais ampla em termos
do papel dos estrangeiros nos Descobrimentos portugueses e das ligações que existiram entre Portugal
e os reinos escandinavos.✠ LARSEN, Sofus, Dinamarca e Portugal no
século XV, Lisboa: Biblioteca Nacional, 1983, p. 45.
79
O capítulo em si é razoavelmente curto e a descrição pode ser descrita como linear – de resto como seria de esperar dado o formato que as crónicas assumem na época – mas é, ainda assim, de uma densidade de informação que abarca múltiplos domínios, cada um deles mais que capaz de merecer um trabalho dedicado de maior fôlego que o presente. A viagem de Valarte permite leituras várias: desde logo económicas e comerciais, mas também de análise do relacionamento político entre Portugal e os líderes africanos da costa da Guiné, da natureza da própria estruturação política e relações entre o mundo muçulmano e a África subsariana, do enquadramento cultural (e, logo, religioso) que permeia de forma clara as motivações e objectivos dos intervenientes, isto apenas a título de exemplo. Para este trabalho optei por identificar e analisar todos os aspectos que me pareceram passíveis de uma interpretação histórica, embora tenha escolhido como tema adicional a política externa de Portugal com os reinos do norte da Europa durante este período e o que o segue; esta escolha foi feita em parte pelo carácter relativamente periférico que apresenta e que, como tal, a maior complementaridade com a matéria leccionada.
Esta temática em concreto tem sido alvo de alguns estudos prévios focados essencialmente em três linhas principais:
A bibliografia utilizada reflecte, grosso modo, esta divisão de forma clara. A viagem de Valarte é quase sempre tratada com maior profundidade nos estudos relacionados com a expedição dos Corte-Real à Terra Nova, e aqui a obra de Sofus Larsen é a que mais directamente endereça o tema em análise neste trabalho✠ Obra essa que é ela própria envolta num certo mistério: traduzida por Jaime Cortesão na década de vinte do século passado foi vítima indirecta da participação do então director da Biblioteca Nacional na revolta contra a ditadura militar de Fevereiro de 1927 que implicou a demissão de Jaime Cortesão; a obra só foi publicada já na década de oitenta com base nos poucos exemplares encontrados, ainda empacotados e nunca circulados. 80, razão pela qual é abundantemente citada.
Sobre a viagem de Valarte em si existem essencialmente duas correntes interpretativas: para a maior parte dos autores a narrativa de Gomes Eanes de Zurara é baseada num episódio real, eventualmente com adaptações de pormenor que não lhe retiram o carácter de descrição de um evento histórico, evento esse integrável numa mais vasta teia de contactos entre a corte portuguesa e dinamarquesa que inclui a vinda de outro dinamarquês – Lolland – que participa no combate aos mouros, no contexto de uma relação próxima entre as cortes portuguesa e dinamarquesa; para outros autores como Morison, contudo, Valarte é mais um topos literário que uma personagem histórica, um apontamento de exotismo destinado a provar a universalidade da luta contra os infiéis. Note-se no entanto que mesmo quem não dá como provada a existência de Valarte não descarta a vinda posterior de Lolland✠ Até porque existe carta de D. Afonso V ao rei Cristiano I da Dinamarca que atesta a sua existência, ao contrário do vazio documental relativo a Valarte, como será analisado mais à frente. 81. Posto isto, e com base na escolha de temática previamente referida, o presente trabalho irá focar-se não no carácter mais ou menos histórico da figura de Valarte mas precisamente na informação que a análise do seu périplo nos pode fornecer.

Década Primeira da Ásia, João de Barros
E estas que elle efereueo deste descobrimento do tempo do Infante dõ Henrique (segundo elle diz) jâ as recebeo de hum Affonso Çerueira que foy o primeiro que as pos em ordem: do qual Affonso Çerueira nôs achamos algũas cartas escriptas em Beni, estando elle ali feiturizan do por parte dcl Rey dom Affonso. E posto que tudo, ou a maior parte do que te qui escreuemos seja tira do da escriptura de Gomezeanes, & assi deste Affonso Cerueria: não foi pequeno o trabalho que tiuemos em ajuntar cousas derramadas, & per papeis rotos, & fora da ordem que elle Gomezeanes leuou no pro cesso deste descobrimento.
São duas as fontes que descrevem a viagem de Valarte: a crónica de Zurara que é analisada neste trabalho e a obra de João de Barros sobre os portugueses na Ásia. Ambas relatam genericamente o mesmo episódio, com algumas diferenças (sobretudo de ênfase) que irei posteriormente referir.
A obra de João de Barros é feita com acesso a manuscritos de Zurara (e não à Crónica da Conquista da Guiné em si, pois João de Barros informa-nos da impossibilidade de encontrá-la), entre outras fontes✠ LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 13. 82; Zurara, por sua vez faz uso de documentos anteriores de Afonso Cerveira✠ ZURARA, Gomes Eanes de, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, [s.l.]: J.P. Aillaud, 1841, p. 465. 83, cuja obra «História das Conquistas dos Portugueses pela Costa d’África» é referida também por João de Barros✠ LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 13. 84. Temos aqui portanto a possibilidade de ambos os relatos que nos chegaram – o de Zurara e de João de Barros – terem nos textos de Afonso Cerveira uma origem comum, texto que não chegou aos nossos dias.
Não sendo o tema deste trabalho convém ainda assim apontar de forma resumida a forma como João de Barros descreve o episódio de Valarte, em concreto onde existem diferenças em relação ao texto de Zurara que irá ser analisado: na «Ásia» é descrita a forma como os feitos dos portugueses chegam à corte dinamarquesa, onde se encontra «... hum homẽ fidalgo per nome Balarte, mui curioso de cousas novas; & […] avendo licença del Rei da Dinamarca, veio a ter a este Reyno encomẽdado ao Infante dõ Henrique...»✠ BARROS, João de, Década primeira da Ásia de João de Barros. Dos feitos que os portugueses fizeram na conquista e descobrimento dos mares e terras do Oriente, Lisboa: Jorge Rodrigues, 1628, liv. I, Cap. XV, fl. 29. 85; se o resto da descrição é alinhada no essencial com a de Zurara retenha-se por ora que na introdução de João de Barros Valarte é mais claramente um membro próximo do Rei e tem o Infante D. Henrique como destinatário explícito antes de partir.
De salientar o contexto histórico da produção das fontes: a Crónica da Conquista da Guiné de Zurara começa a ser escrita no ano da Batalha de Alfarrobeira e é absolutamente clara a preponderância dada ao Infante D. Henrique, o «... principe pouco menos que divinal...»✠ ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. 9. 86, que vê nesta altura confirmado o monopólio da exploração do Atlântico Sul✠ COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 126–128. 87; é, assim, uma Crónica feita à medida do engrandecimento de D. Henrique que faz o sucessor de Fernão Lopes, o que também pode explicar o porquê de ter sido feita uma fusão entre Crónica dos feitos do Infante D. Henrique e Crónica dos feitos da Guiné por volta de 1460: para Margarida Barradas Branco tal teria como objectivo apagar as considerações que Cerveira fazia sobre D. Pedro, considerando-o – e não a D. Henrique – o grande dinamizador da expansão✠ de CARVALHO, Margarida Barradas, apud COSME, João, Os cronistas, in: MEDINA, João (Ed.), História de Portugal: os Descobrimentos (II), Amadora, Portugal: Ediclube, 1994, v. 5, p. 170. 88.
As Décadas de João de Barros surgem já num contexto posterior: educado na corte de D. Manuel, João de Barros vai ao longo da vida desempenhar vários cargos ao serviço de D. João III, desde capitão de S. Jorge da Mina até Feitor da Casa da Mina e da Índia✠ Ibid., p. 173. 89; o primeiro volume das Décadas da Ásia aparecem em 1552 e D. João III patrocina a publicação dos restantes. Trata-se portanto de um texto escrito por um dos grandes nomes do Humanismo português e europeu da época e que tem o explícito objectivo de endereçar uma lacuna em termos de narrativas relativas aos feitos dos portugueses e consequente falta de visibilidade externa✠ Ibid., p. 175. 90. Esta missão era obviamente do interesse de D. João III, numa altura onde África, India e Brasil eram simultâneamente fonte de riqueza mas cada vez mais de preocupações✠ BOXER, C. R, O Império Marítimo Português, 1415-1825, Lisboa: Edições 70, 1992, p. 45–47. 91.
A narrativa de Zurara tem, obviamente, um contexto no espaço e no tempo que é fundamental para a sua compreensão. A Europa da primeira metade do século XIV segue-se ao início da exploração atlântica por Portugal que tem na conquista de Ceuta em 1415 um acontecimento marcante; a situação em Portugal e na Dinamarca é particularmente relevante para a compreensão da viagem descrita na crónica.
A morte de D. Duarte (de peste ou de tristeza pelo desastre de Tânger e o destino do irmão Fernando) marca um ponto chave no agudizar das tensões que se iam avolumando pelo menos desde a conquista de Ceuta: «...Entre nós todos... andamos muito bem até ao tempo de agora.», escrevia D. Duarte ao irmão D. Pedro em 1429, eles que tinham casado com facções rivais de Aragão✠ COELHO, António Borges, História de Portugal: Largada das Naus, Lisboa: Caminho, 2012, p. 90. 92. O testamento apontava a rainha D. Leonor como regente – uma mulher e estrangeira✠ A descrição de Borges Coelho segue de perto a vivida descrição de Rui de Pina na sua Crónica d’El-Rei D. Afonso V, pelo que ambas são utilizadas de forma mais ou menos indiscriminada. A selecção das fontas foi feita por achar que a síntese de Borge Coelho é especialmente adequada, dado o estilo do autor, à dinâmica dos eventos. 93. O povo está por D. Pedro, a nobreza pela rainha (incluíndo o Conde de Barcelos e o Infante D. Henrique).
O conflito é temporariamente suspenso por uma proposta conciliatória de D. Henrique, que entregaria a D. Leonor a administração das rendas e a educação dos filhos, a D. Pedro a defesa do Reino e ao Conde de Arraiolos a justiça; D. Leonor não deseja aceitar, D. João é contra qualquer divisão de poder e os procuradores do povo colocam-se do lado de D. Pedro. A chegada de uma embaixada castelhana a exigir submissão de Santiago e Avis às congéneres castelhanas e reconhecimento de Sevilha como sé metropolitana apenas aumenta a desconfiança em relação a uma rainha da família dos infantes de Aragão✠ COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 96–98. 94. O conflito é palpável, D. Leonor tenta voltar a trás com a promessa de casamento do rei-menino D. Afonso com a filha de D. Pedro✠ MORENO, Humberto Baquero, A Batalha de Alfarrobeira: antecedentes e significado histórico, [s.l.]: UC Biblioteca Geral 1, 1979, p. 9. 95, refugia-se em Santarém. Em 1439 D. Pedro declara à Rainha que «...até ali a Rainha o tivera como ella queria, e que d’hi em deante o tomaria como o achasse...»✠ PINA, Rui de, Chronica deel-rei D. Affonso v, Lisboa: Bibliotheca de Classicos Portuguezes, 1901, p. 62. 96, e em Dezembro D. Pedro é aclamado Regente – D. Afonso é rei, mas continua menor, e agora educado na casa de D. Pedro✠ COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 106. 97: o infante sai vitorioso mas terá para sempre a inimizada do conde de Barcelos e da Casa de Bragança.✠ SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), 3. ed. Lisboa: Editorial Verbo, 1980, p. 64. 98
Com praças divididas e ataques mútuos a Rainha parte para Castela em 1440✠ MORENO, A Batalha de Alfarrobeira, p. 149. 99, sempre apoiada pelo Conde de Barcelos mas no fim dependente da evolução do conflito que opunha D. Álvaro de Luna e os infantes de Aragão, que a levam a recolher-se desamparada e «... em grande míngua...» para Toledo em 1444.
A regência de D. Pedro afirma-se em aparente sincronia com o rei D. Afonso até 1448, onde sinais de afastamento são visíveis e resultado das intrigas do Duque de Bragança e o Conde de Ourém.✠ MORENO, A Batalha de Alfarrobeira, p. 260. 100 D. Pedro termina a regência e retira-se para o seu ducado de Coimbra – mas já com uma escolta✠ Ibid., p. 264. 101. A Casa de Bragança sente que tem espaço e inicia um processo de saneamento dos partidários de D. Pedro, com a aparente cobertura de D. Afonso V✠ Ibid., p. 323–325. 102 que anula as doações do tio e antigo regente; tal era o clima de ajuste de contas que o Infante D. Henrique sente-se na obrigação de defender a honra do irmão e o Conde de Avranches, em frente ao Rei e aos principais inimigos de D. Pedro, diz abertamente que quem o calunia são «...máos e traedores, e que com licença e consentimento de Sua Senhoria os combateria por armas...»✠ D. Álvaro Vaz de Almeida, companheiro de sempre de D. Pedro, cavaleiro da Jarreteira, irá cair nos campos de Alfarrobeira: «... eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assi como vo-la tive em vida […] Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas […] que em breve despedio a alma de si para ir acompanhar a do Infante como lhe tinha promettido...» PINA, Chronica deel-rei D. Affonso v, p. 79–80, 102–103. 103.

A situação continua a degradar-se com D. Pedro recolhido em Coimbra e D. Afonso V a tomar medidas cada vez mais hostis, obtendo o apoio de Lisboa✠ MORENO, A Batalha de Alfarrobeira, p. 390. 104 e convocando o Duque de Bragança com o seu exército de forma a atravessar o ducado de Coimbra. O conflito era inevitável e a posição de D. Henrique – muito discutida pela historiografia, tanto aqui como em relação a Tânger – parece ser a de tentar defender o irmão sem contudo arriscar ser arrastado pela sua queda, que se dá nos campos de Alfarrobeira em Maio de 1449 com a morte do Infante D. Pedro perante a hoste real que conta com a presença de D. Afonso V, D. Fernando, o Conde de Ourém e D. Henrique✠ Ibid., p. 357. 105, ficando insepulto por três dias. Todo o episódio provocou profunda revolta por toda a Europa✠ Ibid., p. 518–520. 106.
Descrita a política interna resta referir o impacto na política ultramarina; a captura de D. Fernando em Tânger tem um nítido impacto na capacidade de intervenção no Norte de África e explica em parte porque até à sua morte em 1443✠ PINA, Chronica deel-rei D. Affonso v, p. 71. 107 não se desenrolam acções de monta em território magrebino.
Desde 1416 que o Infante D. Henrique é responsável pela defesa de Ceuta em todas as suas vertentes. Em 1420 assume o governo da Ordem de Cristo e dirige a partir do continente expedições às Canárias, de povoamento da Madeira e Açores. Em 1434 Gil Eanes passa o Cabo Bojador e em 1443, em plena regência de D. Pedro, recebe o exclusivo da navegação para lá do Bojador✠ COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 111–113. 108. São expedições feitas por gente próxima de D. Henrique, membros da sua casa ou da Ordem de Cristo – que funcionava como extensão da sua casa✠ A introdução da Crónica diz-nos que «entre os primeiros descobridores mais de cinquenta eram criados do infante» ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. XI. 109. Após Alfarrobeira D. Afonso V confirma o monopólio de D. Henrique e a primazia da Ordem de Cristo «...das praias, costas, ilhas, terras conquistadas e por conquistar...», primazia essa reforçada✠ COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 126–128. 110 por bulas (Romanus Pontifex, Inter Cetera...) que tornam o Atlântico a sul do Cabo Não um exclusivo do Infante.
Desembarque em Arzila, nas tapeciarias de Pastrana (Wikimedia Commons)
Em 1466 a Serra Leoa é o limite dos descobrimentos; em 1453 Constantinopla caia nas mãos dos turcos e abalava toda a Cristandade: D. Afonso V mantém o espírito de cruzada apontado para o Magrebe e em 1458 os portugueses tomam Alcácer Ceguer✠ SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 81–85. 111.
Em 1454 entra em cena Cadamosto e outros mercadores italianos que vão fazendo recuar a fronteira sul: António de Noli, Usodimare, Valimi, Marosello, são vários os estrangeiros que participam no quadro da expansão entre 1450 e 1460✠ Ibid., p. 138–140. 112 – factor a reter para não se ver em Valarte algo de absolutamente fora do comum.
As campanhas que se seguiram levam a que D. Afonso V faça em 1469 uso da iniciativa privada para sustentar a expansão, arrendando a Fernão Gomes, mercador de Lisboa, o exclusivo do comércio da costa africana✠ Ibid., p. 174–175. 113.
Exploração da Costa Ocidental Africana (1434-62) -- COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 215.
Entra-se assim numa nova fase que já não é a da viagem de Valarte, que se insere no período final da regência de D. Pedro e um pouco antes da participação de Cadamosto e Usodimare, e exactamente no período de viragem, como se irá ver, entre a captura hostil de escravos e a constituição de uma rede comercial assente em contactos pacíficos.
Gomes Eanes de Zurara refere de forma clara que a notícia dos feitos dos portugueses em África tinha chegado às cortes de «...del Rey de Dinamarca e de Suecia e de Noroega...»✠ ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. 441. 114; de facto mais do que a três cortes separadas convém salientar que estava em vigor uma união dinástica – a União de Kalmar – que consolidava no Rei Cristovão da Baviera a coroa dos Reinos da Dinamarca, Suécia e Noruega✠ RYING, Bent, Denmark: History., Copenhaga: Royal Danish Ministry of Foreign Affairs, 1988. 115; mostrando que as estratégias dinásticas com objectivo centralizador são um aspecto transversal na sociedade europeia (e refiro este ponto pelas semelhanças superficiais mas presentes que tem com o processo ibérico que também se desenrolava em moldes semelhantes, em especial desde as Tercerias de Moura, e que teria o seu epílogo na união dinástica sob os Habsburgos de toda a península) da época esta situação tinha vindo a ser preparada por via de vários tratados, sendo o casamento da filha do Rei Valdemar IV da Dinamarca com o Rei Haquino VI da Noruega um momento crucial para esta tendência de unificação, que seria contudo efectivada por via militar (mais uma vez, com paralelos óbvios à situação referida supra). Note-se que a União de Kalmar era, pelo menos para a época em análise, de preponderância dinamarquesa, factor que de resto irá levar à secessão da Suécia ainda durante o século XV✠ Ibid. 116.
Mapa da União de Kalmar (Scandinavien bis zur calmarischen Union, 1397, Karl von Sprune 1855)
Mas que motivações concretas sustentaram esta acção unificadora? Aqui deve ser realçado o papel da Liga Hanseática e o apogeu do poder dos Cavaleiros Teutónicos (eles próprios um estado construído com base na cruzada em território prussiano), ambas representando uma hegemonia germânica que não deixava de ameaçar de forma concreta a Dinamarca e a Suécia, em particular: a União de Kalmar é pois em boa medida uma reacção dos três reinos escandinavos a esta ameaça e a tentativa de criação de um bloco unificado que permitisse uma oposição efectiva à pressão germânica do final do século XIV✠ EHRENSVÄRD, Ulla, Cartographical Representation of the Scandinavian Arctic Regions, Arctic, v. 37, n. 4, p. 552–561, 1984, p. 552. 117.
Durante esse período nota-se igualmente um ímpeto de exploração marítima, em especial na região ártica, empresa que o rei Eric da Pomerânia patrocina de forma especialmente relevante; herdeiros do conhecimento do período viquingue (que chegaram não só à Islândia e Gronelândia mas também bastante mais a sul, como de resto as incursões normandas em Portugal provam de forma especialmente clara✠ Refira-se de passagem que estas incursões chegam a território africano, embora seja discutível se este conhecimento do mundo mais meridional tenha tido efectiva transmissão. BRINK, Stefan; PRICE, Neil, The Viking World, [s.l.]: Routledge, 2008, p. 467–469. 118) e com uma tradição marítima própria da extensa linha de costa que define o perfil da península escandinava. A esta tradição deve-se juntar um factor que impacta toda a Europa medieval (e que transpira para os primeiros momentos da Idade Moderna) e que irá ser melhor detalhado durante a análise textual: a importância da literatura cavalheiresca e o espírito de cruzada que alimentava o próprio conceito de cavalaria subjacente à condição de nobre, e que no caso dos reinos nórdicos tem nos relatos de João de Mandeville substracto especialmente fértil – e prontamente modificado com a adição de Ogier o Dinamarquês (Holger Danske), suposto paladino de Carlos Magno✠ RYING, Denmark. 119 responsável pela conquista da Índia e conversão dos nativos ao Cristianismo e contacto com Prestes João✠ A descrição da conquista de reinos inteiros é comum na literatura da época: note-se como o Rei Artur conquista a Europa praticamente toda e é coroado Imperador, e por outro lado a criação de linhagens reais com origens mais ou menos exóticas não é também de estranhar (cf. João de Barros e a Crónica de Clarimundo, com a linhagem real portuguesa a descender dos Imperadores da Hungria – BARROS, João de, Chronica de Emperador Clarimundo, donde os Reys de Portugal descendem, 4a imp. Lisboa: Francisco da Sylva, 1742.) 120.
Temos assim três condições importantes para enquadrar o envolvimento nórdico na exploração atlântica portuguesa: do ponto de vista político uma centralização na figura de um único soberano, do ponto de vista económico a necessidade de diversificar mercados de forma a reduzir a dependência da Liga Hanseática, e por último um certo espírito de cavalaria que faz parte do zeitgeist medieval e que se irá revelar (por vezes de forma surpreendente) até pelo menos os primeiros momentos da Idade Moderna.
Dado o enquadramento inicial inicia-se o que é o objectivo principal deste texto: a análise textual, uma leitura crítica da fonte de forma a não só compreendê-la no contexto da época mas também – e principalmente – extrair dela toda a informação que nos permita enriquecer o nosso conhecimento desse mesmo contexto e através da maior ou menor coincidência com o que se tem como certo aferir da sua qualidade enquanto fonte.
Em termos de organização optei pela divisão do capítulo em componentes onde identifico um tema principal e pela inclusão de um resumo acrítico, a que se segue a análise textual dos pontos considerados relevantes.

Livro das Escrituras da Ordem de Cristo, ANTT
A fama dos feitos dos portugueses chega à Escandinávia. Valarte vem ter, com permissão do Rei da Dinamarca, com o Infante D. Henrique, com quem fica. O Infante aceder ao pedido de aparelhamento de uma caravela para ir à terra dos Negros, pedindo-lhe que fosse a Cabo Verde falar com um Rei que se julgava ser cristão e podería ajudar na guerra contra os Mouros em África que o rei D. Afonso IV levava cabo. Valarte parte acompanhado de um cavaleiro da Ordem de Cristo, Fernando Afonso, que era da casa do infante e que o acompanhava por Valarte ser estrangeiro e também como embaixador caso encontrasse aquele Rei, levando dois naturais daquela terra por turgimães.
A «fama destes feitos», o seu alcance universal, é como se viu referido tanto por João de Barros como por Zurara, embora não fiquem claros quais os mecanismos que são utilizados. Este ponto aparentemente inócuo tem implicações que são importantes em termos de se posicionar a vinda de Valarte: será conforme descrito uma vinda decidida por mote próprio e relacionada com o desejo que «... homeẽs nobres se entremetem de quererem veer e saber semelhantes cousas...»✠ ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. 441. 121 ou, em alternativa ou complemento, uma vinda que podendo encontrar substracto fértil nesse espírito de aventura é fruto de um planeamento político – e se sim, de qual dos países? Para Larsen esta vinda de Valarte só é explicável de forma satisfatória se a iniciativa da vinda de Valarte tiver partido de Portugal, em concreto do Infante D. Henrique, pois de outra forma (isto é, assumindo que não existe este convite ou pelo menos uma relação de comunicação mais ou menos regular entre as cortes) a chegada não programada de um estrangeiro poderia ter uma receptividade reduzida; se é verdade que se pode objectar a esta hipótese que Portugal teve vários estrangeiros envolvidos de forma directa no seu projecto de expansão refira-se que esses estrangeiros foram especificamente recrutados para o efeito✠ SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 138–140. 122, o que acaba por reforçar a teoria avançada por Larsen, ainda mais quando o infante é aparentemente lesto em preparar uma armada a capitanear por Valarte, secundado por um cavaleiro da Ordem de Cristo.
A política de secretismo e extremo sigilo que caracteriza os descobrimentos portugueses (e neste período em particular) foi exposta de forma clara por Jaime Cortesão✠ CORTESÃO, Jaime, A política de sigilo nos descobrimentos: nos tempos do Infante D. Henrique e de D. João II, [s.l.: s.n.], 1960, passim. 123, e encontra eco para este caso em concreto no trabalho de Porro Gutiérrez sobre o conceito de segredo de estado na relação luso-castelhana✠ PORRO GUTIÉRREZ, Jesús Ma, Una antinomia protorrenacentista: secreto de estado y divulgación en los descubrimientos luso-castellanos. La cartografía (1418-1495), Anuario de estudios americanos, v. 60, n. 1, p. 13–40, 2003, p. 20. 124.
A presença de Fernando Afonso, cavaleiro da Ordem de Cristo e da casa do Infante, não surpreende, integrando-se num período de ascendência da Ordem de Cristo por via da influência do Infante D. Henrique (e, consequentemente, um período de maior apagamento dos espatários)✠ COSME, João; MANSO, Maria de Deus, Estudos de história da expansão portuguesa, Lisboa: Edições Colibri, 1992. 125. Que seja portanto um cavaleiro da Ordem de Cristo a acompanhar Valarte e a comportar-se como mensageiro para um «rei cristão» é perfeitamente enquadrável na estratégia de utilização das Ordens Militares da época. Com ele seguem dois turgimães, intérpretes essenciais para a missão de carácter diplomático.
Mapa-múndi de Domingos Teixeira,1573. Note-se a
terra de ``Preste Joã'' na zona da Etiópia.
Esse carácter diplomático, essa tentativa de encontrar um «rei cristão», remete-nos de forma clara para a lenda do Preste João, divulgada na Europa do século XI em plena primeira cruzada e que se propagou por toda a Europa, em várias versões, durante os séculos seguintes e incorporando temas já mais próximos do romance cortês e de cavalaria✠ VILHENA, Maria da Conceição, O Preste João: mito, literatura e história, ARQUIPÉLAGO. História, v. 5, p. 627–649, 2001, p. 627–628. 126. A procura de Prestes João enquanto aliado na luta contra os mouros é referida noutros capítulos da crónica de Zurara (cf. a descrição da ida em 1442 de Antão Gonçalves a África em busca de notícias desse Rei✠ ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, cap. XVI. 127). Este rei não é apenas da Etiópia mas também «...das Índias...»✠ Ibid. 128, e a sua real localização será activamente debatida durante séculos; o infante D. Pedro terá sido, de resto, dos primeiros portugueses a possuir um exemplar do «Livro de Marco Polo», trazido de Veneza durante as suas viagens pela Europa na década de 20 do século XV✠ CURTO, Pedro Mota, História dos Portugueses na Etiópia (1490-1640), Porto: Campo das Letras, 2008, p. 60–70. 129. Este livro coloca Prestes João na Ásia, mas com o passar do tempo, e a impossibilidade de o encontrar no Oriente, a busca volta-se para a África – e aqui é essencial o próprio processo de expansão portuguesa ao aumentar o conhecimento cartográfico e possibilitar uma reinterpretação dos relatos existentes, o que alimenta a esperança de encontrar o poderoso rei em África.✠ Ibid., p. 80. 130
Morte de Ahmad ibn Ibrahim al-Ghazi Baleado por um Mosqueteiro Português na batalha de Wayna Daga. Travada em 1542 no contexto da guerra entre o Império Português e o Império Otomano (Wikimedia Commons)
A busca por Prestes João irá constituir um tema importante durante os reinados seguintes, com o seu momento mais representativo na chegada de Pêro da Covilhã ao Império da Etiópia, a mando de D. João II, onde ficará retido até à sua morte (mesmo após a chegada da primeira embaixada portuguesa em 1520 Pêro da Covilhã não regressa a Portugal). A associação entre o Imperador da Etiópia, os cristãos coptas e Prestes João irão ser motivo para uma relação política interessante entre os Reis de Portugal (a começar por D. Manuel I) e o Negus da Etiópia✠ BETHENCOURT, Francisco; CHAUDHURI, Kirti, História da Expansão Portuguesa, [s.l.: s.n., s.d.], p. 96–97. 131 e irá resultar na participação militar portuguesa em vários episódios da história desta região africana✠ CURTO, História dos Portugueses na Etiópia (1490-1640), p. 192–218. 132.
Partida de Lisboa e 6 meses de viagem muito trabalhosos até à ilha de Palma, perto de Cabo Verde. Decisão de seguir viagem e fundear em Abram. Valarte e alguns homens saem num batel em direcção a terra onde estão à espera muitos negros. Valarte propõe troca de um branco por um negro para garantir segurança. Recusa dos negros sem autorização do governador, Guitenya. Guitenya é chamado e concorda com a troca. Um negro é levado à caravela e Fernando Afonso, que «sabia melhor a nossa língua portuguesa», informa-o que o motivo de o terem trazido é para que diga ao seu senhor que tinham vindo a mando de um grande e poderoso príncipe de Espanha para falar com o Rei daquela terra. Os turgimães lêem-lhe as cartas. O negro responde que o seu senhor se chama Boor e que não pode transmitir-lhe nenhum recado porque anda a guerrear longe com outro senhor que não se lhe quer submeter, e demorará cerca de sete dias a ir e vir com uma resposta. Fernando Afonso insiste na importância da missão e o guinéu acede a transmitir o plano a Guitenya. Dão-lhe de comer e beber e também uma carta que tinha escrito tudo aquilo que tinham já falado para que a levasse em sinal de amizade.
Seis meses após partida de Lisboa, e no ano de 1447, a expedição chega a Abram, que se julga poder situar entre a ilha da Palma e o actual rio Jumbas✠ COSME, Os cronistas, p. 28. 133, na região da Senegâmbia (actual Senegal). A expansão portuguesa estava nesta altura – meados do século XV – a dar os primeiros passos para a região da Serra Leoa, utilizando muitas vezes a Madeira como ponto de escala✠ SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 164. 134; refira-se aqui a questão das Canárias, ponto de contenção entre Portugal e Castela e que nesta altura ainda não estava definitivamente resolvido, embora a exploração a sul e a colonização da Madeira tenham servido para diminuir a intensidade das pretensões portuguesas, se não de jure pelo menos de facto✠ Ibid., p. 150. 135. Estamos portanto numa fase de exploração do Atlântico já a sul do «Mediterrâneo Atlântico» de Chaunu e Braudel✠ BRAUDEL, Fernand, O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II, 2a. ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995, p. 250–253. 136 – mas cuja exploração assenta no controlo dessa mesma área do atlântico desde a passagem do cabo Bojador por Gil Eanes em 1434✠ SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 150. 137.
A desconfiança e conflictualidade latente na aproximação entre europeus e africanos é clara e é um tema que permeia todo o capítulo, tendo no confronto final e morte de boa parte da tripulação europeia o seu clímax. Esta descrição é perfeitamente compaginável com o que foi o padrão de contacto de uma fase inicial da exploração atlântica portuguesa e que teve como mote as primeiras capturas de nativos para venda como escravos em Lagos, acção levada a cabo por Antão Gonçalves em 1441 seis anos antes da viagem aqui relatada✠ COSME, Os cronistas, p. 23. 138.
A descrição do desembarque dos escravos em
Lagos será o primeiro momento no tráfico transatlântico dos séculos seguintes. As escavações
arqueológicas em Lagos revelam a realidade material deste comércio, nesta imagem a «...deposição
dupla de um recém-nascido (cerca de 40 semanas fetais) junto ao braço direito dum esqueleto de sexo
feminino...» (NEVES, Maria João; ALMEIDA, M.; FERREIRA, M. Teresa. História de
um arrabalde durante os séculos XV e XVI:“o poço dos negros” em Lagos (Algarve, Portugal) eo
seu contributo para o estudo dos escravos africanos em Portugal. A Herança do Infante,
2011, 2011: 29-46.)
Esta primeira fase é marcada por esta actividade predatória e consequente hostilidade das populações da costa africana, bem visível na forma como Zurara nos descreve todos os cuidados da tripulação. Esta fase de utilização de captura – bem como resgate costeiro e fluvial – para alimentar o comércio de escravos irá revelar-se pouco eficaz, tanto pela dificuldade que adiciona à manutenção de contactos com os poderes locais como pela própria resistência cada vez mais forte dos locais que várias vezes acaba em massacre, como foi o caso da expedição de Nuno Tristão à região de Niomi (já perto do estuário do rio Gâmbia e portanto na mesma região subsariana que trata a narrativa da viagem de Valarte) que culminou na morte do mesmo em moldes muito semelhantes ao que irá acontecer✠ Ibid., p. 28. 139; em boa parte pelos resultados negativos desta política ela será abandonada: o Duque de Viseu ordena em 1448 que cessem todas as capturas e que todos os contactos sejam por via pacífica (ou seja, negociada com elites locais), permitindo assim estimular o comércio com as comunidades locais que teria em Arguim, cuja construção é iniciada em 1455, o seu primeiro entreposto comercial e modelo para o que seria a malha de entrepostos que a expansão portuguesa iria tecer✠ ALBUQUERQUE, Luís de; DOMINGUES, Francisco Contente, Dicionário de história dos Descobrimentos portugueses, Lisboa: Caminho, 1994, p. 83. 140. Esta viagem está portanto muito perto do ponto de viragem, numa altura onde já se iniciavam as acções diplomáticas mas ainda existia uma situação concreta de hostilidade que só o tempo e as relações políticas e comerciais iriam fazer diminuir.
A referência a Guitenya é uma das primeiras – se não mesmo a primeira – referência a um dignatário político da região da Senegâmbia. Esta área dos jalofos✠ Hoje em dia também conhecidos por wolofs ou uólofes, embora jalofos pareça ser o termo documentado com maior antiguidade 141 é já uma esfera à parte do mundo muçulmano magrebino (embora não estanque) o que irá ao encontro de um dos objectivos do Infante D. Henrique – o suporte contra o inimigo islâmico✠ Refira-se a visita do «Rei Jalofo Bomaim Gilem» descrita por João de Barros, soberano recebido por D. João II, baptizado e tragicamente «mal morto» por Pero Vaz, num contexto de estabelecimento de alianças políticas pelo Príncipe Perfeito que é um seguimento destes contactos iniciais (BARROS, Década primeira da Ásia de João de Barros, liv. III, Cap. 6, fl. 46.) 142 visto os nativos desta região seguirem religiões africanas – sendo que os seus nomes são possivelmente uma corruptela de teeñ e buur, respectivamente um título usado pelos senhores de Baoul e «rei»✠ ALMADA, André Alvares d’, Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo-Verde, [s.l.]: Typographia commercial portuense, 1841, p. 100. 143, ambos em língua jalofa✠ BOULÈGUE, Jean, Les royaumes wolof dans l’espace sénégambien: XIIIe-XVIIIe siècle, [s.l.]: KARTHALA Editions, 2013, p. 19–20. 144.
A utilização de nativos como turgimães é essencial para a prática de uma política de alianças, e não é portanto surpreendente que tenham seguido na expedição; de resto já em 1442 existem referências à utilização de cativos como intérpretes, sendo a sua participação nas expedições e eventual «devolução» às suas terras natais utilizada como elemento adicional destinado a fazer crescer a confiança nos cristãos✠ SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 153–154. 145.
A chegada de mais dois guinéus, Satam e Minef. Transmissão da mensagem a Guitenya e impossibilidade de comunicar e obter resposta pela aglomeração de curiosos que só a custo são afastados. Regresso à caravela e regresso no dia seguinte num batel, que encontra Guitenya numa embarcação que, ao vê-los, regressa a terra. Guitenya manda que tragam uma cabra, um cabrito, cuscus, papas com manteiga, pão com farinha e espigas, um dente de elefante, sementes com que faziam o pão, leite e vinho de palmas. A presença de outro guinéu, Amallam, que era filho de um tio de Guitenya e que por sua mercê tinha recebido aquelas terras. Esse cavaleiro pareceu querer falar com os do batel mas Guitenya não o consentiu por ser ele quem estava responsável pelo contacto.
A hospitalidade de Guitenya é favoravelmente comparada com a descrição feita dos dois novos guinéus «... de fealdade extrema...». A oferta de comida aos europeus é reveladora dos produtos locais e fornece pistas importantes para o que será mais tarde o comércio que os portugueses irão empreender com as comunidades locais, e que serão fundamentais em particular para o papel que Cabo Verde irá desempenhar: com condições inóspitas e avessas à colonização europeia, também por isso D. Afonso V irá conceder aos moradores exclusividade no comércio com a costa da Guiné; esta primeira fase de colonização é já marcada pela importância do comércio de escravos (a par de algum marfim e ouro✠ BOXER, O Império Marítimo Português, 1415-1825, p. 40–41. 146) e também de bens de consumo alimentares✠ COSME, João; MANSO, Maria de Deus, Traços da Economia Cabo-Verdiana (1462-1521), in: Estudos de história da expansão portuguesa, Lisboa: Edições Colibri, 1992. 147 como o milho, provavelmente presente na farinha utilizada nos pratos oferecidos por Guitenya. A produção local de sabão está associada a um aumento de moradores motivado por estas políticas de fixação promovidas por D. Fernando, que estimula também a produção agrícola, embora nem sempre com sucesso: os portugueses tentam naturalmente plantar o trigo e a vinha, bem como criar gado, onde quer que chegassem, o que nem sempre tinha resultados adequados nos trópicos✠ MAGALHÃES, Joaquim Romero de, As Estruturas de Produção Agrícola e Pastoril, in: MATTOSO, José (Org.), História de Portugal: No alvorecer da modernidade (1480-1620), Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, v. 3, p. 280–281. 148. Neste caso concreto é importante salientar que foi exactamente o gado caprino que melhor se adapta a Cabo Verde, pelo que a presença de uma cabra e um cabrito – e não de gado vacum – reflecte certamente que no continente africano existem condições e constrangimentos semelhantes.
A posição estratégica de Cabo Verde de suporte ao comércio com a costa africana irá aumentar significativamente com a chegada à Índia, mas mesmo na segunda metade do século XV torna-se essencial o seu povoamento para garantir o resgate do ouro e fornecer um ponto de apoio ao avanço para sul da expansão, e para esse resgate trocam-se também produtos do norte de África como tapetes berberes: Portugal adquire na Europa e no Norte de África produtos com os quais obtém o ouro em pó que chega à região da Senegâmbia, que por sua vez permite a aquisição de novos produtos com saldo global positivo✠ MAGALHÃES, Joaquim Romero de, A Estrutura das Trocas, in: MATTOSO, José (Org.), História de Portugal: No alvorecer da modernidade (1480-1620), Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, v. 3, p. 336–338. 149; durante séculos moedas de ouro de cunhagem portuguesa, fruto deste comércio, foram tão comuns na Europa Setentrional que certos tipos de moeda passaram a ser denominadas «portugaleses», independentemente do seu local de origem✠ BOXER, O Império Marítimo Português, 1415-1825, p. 46–47. 150.
Analisadas as implicações comerciais do banquete oferecido por Guitenya, volte-se a analisar os novos protagonistas que são mencionados pelo cronista. A descrição de Minef como sendo especialmente horrendo pode ser interpretado como referência à utilização de máscaras, vestes e pinturas corporais próprias de um feiticeiro✠ TYMOWSKI, Michał, Why Did Valarte Die? Death of a Danish Knight During Expedition to West Africa in Mid 15th Century, Acta Poloniae Historica, n. 98, 2008, p. 71. 151, razão pela qual Zurara referiria «...empero de mayor poder era que alguũ dos outros...»✠ ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. 445. 152. Esta interpretação é interessante, embora usando de alguma parcimónia se possa também limitar a apreciação de Zurara a conceitos estéticos bem mais simples e sem implicações socio-culturais. Em todo o caso Minef e Satam são ambos descritos como tendo algum poder aparente, tal como Amallan que tenta inclusivé substituir-se a Guitenya no contacto com os europeus. Zurara relata também a discórdia entre eles, discórdia essa que parece perdurar após a partida para a caravela. A análise de Tymowski sobre esta situação parece bastante adequada: Guitenya tem poder, mas não tem mais poder que outros chefes locais, que têm eles próprios os seus seguidores; enquanto está presente consegue manter a situação sob o seu controle – o que significa que tem poder suficiente para não ser abertamente desafiado – mas é palpável na descrição que existe desacordo em relação à forma de lidar com a expedição, desacordo que pode ser devido a lutas intestinas de poder, a uma preocupação que Guitenya obtenha por via dos seus contactos um aumento de poder, ou todas elas✠ TYMOWSKI, Why Did Valarte Die?, p. 71–72. 153. Estes desacordos irão revelar-se fundamentais para o desfecho da expedição.
Guitenya passa a visitar a caravela e indica que tem autoridade suficiente para tratar de tudo o dissesse respeito àquela terra, incluíndo comércio, porque o rei Boor quando dava o governo de uma terra a alguém o fazia sem limites e com delegação total; os portugueses insistem, têm instruções explícitas para falar com o rei, tendo ficado acordado que Guitenya enviaria o recado ao rei Boor. Enquanto esperavam Guitenya continuava a visitar a caravela e a levar da melhor comida que tinha, dentes de elefante, e em troca recebendo panos e jóias, num clima bastante agradável de conversação. Um dia os portugueses pedem-lhe se é possível obterem um elefante morto para dele tirarem a pele, os dentes, ossos e carne, algo que o guinéu responde ser fácil. Valarte oferece em troca uma tenda de pano com capacidade para trinta pessoas. Os portugueses iam muitas vezes a terra ter com Guitenya, mas mantinham-se a distância segura para não serem filhados. O cavaleiro Guitenya assegurou os portugueses que podiam vir em segurança pois todos os homens em terra lhe deviam obediência, parecendo Guitenya em todas as coisas um homem verdadeiro.
A relação estabelecida com Guitenya e as implicações da mesma foram referidas anteriormente, devendo notar-se aqui a afirmação de que todos os homens em terra lhe devem obediência e que, como tal, os tripulantes da expedição portuguesa podem vir a terra com segurança – algo que se irá verificar não ser completamente verdade e que resulta da dinâmica da luta de poderes que já foi analisada.
As trocas entre Guitenya e os portugueses são representativas: marfim e malaguetas, e em troca panos e jóias, são em parte uma descrição adequada do comércio que se irá efectuar (adicionem-se os escravos e o ouro, bem como o fornecimento de manilhas de latão)✠ SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 168. 154.
A descrição que é feita de Guitenya é merecedora de algumas considerações adicionais; a descrição que dele faz Zurara é substancialmente mais favorável do que o devido a alguém que meramente serve os interesses portugueses, é um «homem verdadeiro» no seu trato e comportamento. Esta caracterização de Guitenya remete-nos para um topos literário bem conhecido na época porque presente na Matéria da Bretanha e ecoada em vários outros romances de cavalaria, o do bom pagão que tem em Palamades um arquétipo:✠ NUNES, Irene Freire (Org.), A Demanda do Santo Graal, Lisboa: Impr. Nacional-Casa da Moeda, 1989, p. 173. 155 «... o Este é, disse el [Gaeriet], Palamades, o pagão, ũũ dos bõõs cavaleiros do mundo...».
Palamades, Marc e Dinadan How King Marke and Sir Dinadan heard Sir Palomides making great sarrow and mourning for La Beale Isoud (Wikimedia Commons)
Trata-se, de alguma forma, de uma valorização dos gentios em relação aos muçulmanos. Guitenya não é mouro nem judeu, logo era menos torpe e mais naturalmente inclinado para a bondade, uma «linhagem propensa à conversão»✠ GUIMARÃES, Jerry Santos, Memória e Retórica: “Mouros” e “Negros” na Crônica da Guiné (Século XV), Dissertação de Pós-Graduação, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vitória da Conquista, 2012, p. 144. 156. Não é por acaso que o único mouro azenegue nomeado na Crónica da Guiné, Ahude Meymon, se porta com «falsidade», enquanto Guitenya é «homem verdadeiro»: a linhagem dos gentios é associada assim ao conceito de «bom pagão», enquanto os mouros azenegues demonstram por actos a sua torpeza. Este conceito irá alimentar a justificação moral para a escravatura, com a salvação da alma através do baptismo sendo de importância superior ao processo que o torna possível; como nos diz o próprio Zurara na sua dedicatória «...as prezes das almas inocentes daquellas barbaras naçooẽs […] pollo teu engenho, pollas tuas despesas infyndas, pellos teus grandes trabalhos, som trazidas ao verdadeiro caminho da salvaçom, as quaes lavadas na augua do baptismo, e hungidas com o santo olio, soltas desta mieserável casa, conhecem quantras treevas jazem sob assemelhança da claridade dos dyas dos seus antecessores...»✠ ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. 10. 157.
A fortuna e as más decisões precipitam um fim trágico. Estando Guitenya fora à procura do elefante que lhe fora pedido, Valarte, de forma imprudente, quer ir a terra, e por muitas razões em contrário que lhe dessem não se demoveu dessa intenção. Aproximando-se de terra apareceu um negro com uma cabaça de vinho ou água que fingia querer oferecer aos portugueses. Valarte insiste que se chegassem mais perto de terra, não prestando atenção a quem o avisava ser muito pouco ajuizada tal acção. Ao aproximarem-se do negro um dos turgimães, Afonso, tenta chegar à cabaça, escorrega e cai dentro de água; os outros, ao tentarem resgatá-lo, fazem uma manobra que é apanhada por uma onda de tal forma que todos caem ao mar. Os negros que se escondiam na sombra das árvores avançam sobre o batel, arremessando as suas azagaias, de tal forma que apenas um tripulante consegue regressar à caravela a nado: dos outros não sabe o cronista que fim tiveram, sendo que o sobrevivente relatou que apenas viu um ser morto e que das vezes que olhou para trás sempre viu Valarte sentado na popa do batel. Fernando Afonso, sem batel para regressar a terra, levanta as âncoras e retorna ao reino.
A morte de Valarte – ou a sua captura, não é certo qual – é fruto da sua teimosia e má decisão, por um lado, mas também da má compreensão da estrutura política com que se tinha deparado: a ida a terra revela uma confiança no poder efectivo de Guitenya, que tinha de facto indicado que «...aquelles todos eram seus, e que lhe nom faryam nhuũ desprazer...»✠ Ibid., p. 447. 158, mas foi já analisado que existiam diferentes grupos de poder entre os guerreiros guinéus, e Guitenya conseguia manter o que tinha prometido enquanto estivesse fisicamente presente.✠ TYMOWSKI, Why Did Valarte Die?, p. 73. 159 Com a sua partida para procurar a carcaça de elefante que lhe tinha sido pedida deixou espaço para que outros – também munidos de algum tipo de poder semelhante – tomassem a iniciativa e atacassem Valarte e todos os que o acompanhavam, talvez com o objectivo de interromper de forma definitiva as negociações e fragilizar a posição de Guitenya.
Neste sentido a morte de Valarte deve-se em parte à frágil organização política que encontrou, e que tem um contraponto na realidade com que se vai deparar Cadamosto na zona perto de São Jorge da Mina: uma organização política mais sólida, tanto com mandingas da Gâmbia como com jalofos do Senegal✠ ALBUQUERQUE; DOMINGUES, Dicionário de história dos Descobrimentos portugueses, p. 262–264. 160, e que vai permitir trocas comerciais sem episódios hostis através de pactos de longa duração (dos quais o com o rei Budomel é um exemplo exactamente no fornecimento de escravos e outros «produtos» à feitoria da Mina✠ TYMOWSKI, Why Did Valarte Die?, p. 74. 161).
Ao Sereníssimo príncipe Cristiano, por graça de Deus rei da Dinamarca, &c, seu parente e irmão caríssimo, Afonso, por graça de Deus rei de Portugal e do Algarve e senhor de Ceuta e Alcácer em África, envia muitas saudações e deseja aumento de prosperidades. Foi-nos grato saber por L[aaland], passavante de Vossa Serenidade, da saúde vossa e de vossa esposa e filhos.
Feita a análise da fonte, que é afinal a componente principal deste trabalho, segue-se um resumo de alguns dos pontos principais que pautaram as relações entre Portugal e a Dinamarca do período que rodeia a expedição de Valarte. Dado que sobre Valarte em si já foi feita a análise em profundidade trata-se agora de uma aproximação mais geral, no fundo um complemento à contextualização histórica que imediatamente precedeu a análise textual.
Dadas as características deste trabalho não se trata de uma análise exaustiva e em profundidade: para isso seria necessário um trabalho de análise de fontes documentais adicionais e exceder largamente o âmbito proposto. Trata-se sobretudo de uma síntese assente nas principais obras sobre a matéria.
A análise da política matrimonial é uma das formas de aferir o relacionamento entre os estados medievais. Nesse âmbito a política portuguesa privilegiou, com flutuações e tendências várias, casamentos dentro do espaço ibérico – numa primeira fase – seguida de uma diversificação que não retira a esse mesmo espaço ibérico a primazia estatística✠ BRAGA, Paulo Drumond, Casamentos reais portugueses: um aspecto do relacionamento ibérico e europeu (séculos XII-XIV), Revista da Faculdade de Letras: História, v. 15, n. 2, p. 1531–1538, 1998, p. 1532–1533. 162. Mas se Leão, Castela e Aragão são maioritários refira-se que a Dinamarca, e para o período entre o século XII e XIV, é curiosamente a que imediatamente se segue, com dois matrimónios e à frente da Flandres, Sabóia e França✠ Ibid., p. 1534. 163.
D. Berengária de Portugal, Rainha Consorte da Dinamarca -- Genealogia dos Reis de Portugal (Wikimedia Commons)
O primeiro matrimónio é o da infanta Berengária, filha de D. Sancho I, que casou com o Rei Valdemar II «o Victorioso» da Dinamarca em 1214✠ HØRBY, Kai, The fate of the descendants of christoffer I. Aspects of Danish politics 1252–1319, Scandinavian Journal of History, v. 4, n. 1-4, p. 207–229, 1979, p. 207–209. 164, casamento feito no âmbito da necessidade de se conseguir o alinhamento da Dinamarca no conflito que opunha a França ao Império✠ BRAGA, Casamentos reais portugueses, p. 1536. 165. A Rainha Berengária foi famosa pela sua beleza e as baladas dinamarquesas reflectem a rivalidade intensa com Dagmar, primeira mulher do Rei Valdemar II, com Berengária a ser retratada como mulher interventiva e poderosa✠ SMITH-DAMPIER, Eleanor Mary, Danish Ballads, Cambridge: Cambridge University Press, 2013, p. 22–34. 166 em contraponto com a «doce» Dagmar167.
O segundo matrimónio é em larga medida uma sequência do primeiro: a infanta Leonor, filha de D. Afonso II de Portugal e portanto sobrinha de Berengária, casa com o Rei Valdemar «o Jovem» (enteado de Berengária)✠ BRAGA, Casamentos reais portugueses, p. 1536. 168, casamento que dura pouco pois Leonor morre durante o parto passados dois anos do seu casamento em 1229✠ Ibid., p. 135. 169.
Para além das questões puramente genealógicas retenha-se que as relações com a Dinamarca não podem ser descritas como completamente insignificantes quando existem dois casamentos durante o século XIII, o que teve um reflexo no aumento dos contactos entre as duas cortes, inclusivé do ponto de vista económico✠ Ibid. 170.
A chegada de Valarte de forma espontânea é, como já foi referido, dificilmente aceite por vários autores que preferem ver nessa vinda uma iniciativa do Infante D. Henrique destinada a encetar relações mais próximas com quem detinha conhecimentos náuticos do Atlântico Norte✠ LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 15–16. 171, que teria sido aceite pelo rei Cristovão da Dinamarca em parte por razões semelhantes mas também por um desejo de encontrar Prestes João e explorar a Índia, pois nas versões escandinavas teria sido Ogier Dansk o seu fundador✠ EHRENSVÄRD, Cartographical Representation of the Scandinavian Arctic Regions, p. 552. 172.
Carta de Afonso V ao Rei Cristiano da Dinamarca
Considere-se como hipótese a inexistência histórica de Valarte: significa isto que não existem dados que nos apontem para a manutenção de relações cordiais entre as duas cortes? Não, pois existem provas incontornáveis da presença de Laaland, passavante do rei Cristovão, em Portugal: em carta datada de 1461 (poucos anos depois da Batalha de Alfarrobeira e morte do Infante D. Pedro e um ano após a morte do Infante D. Henrique) o rei D. Afonso relata ao seu «... parente e irmão caríssimo...»✠ LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 19. 173 o rei Cristovão que Laaland, para além das óbvias virtudes já conhecidas e que lhe conferem o cargo de passavante, participou com denodo nas campanhas militares em África em vários combates com o Conde de Viana, capitão da fortaleza de Alcáçer, onde «...lançaram fogo a várias aldeias e muitas outras saquearam tomando não poucos cativos...»✠ Ibid. 174 tendo sido por isso armado cavaleiro por D. Afonso V, que o recomenda ao rei dinamarquês. Não é de supor que a presença de um passavante – cargo relacionado com a função de arauto, e que tendo variações em termos de categoria social envolve sempre um grau de proximidade com o poder real ou nobiliárquico✠ NASCIMENTO, Aires Augusto (Org.), Livro de Arautos, Lisboa: [s.n.], 1977, p. 33–46. 175 – a participar em campanhas militares no Norte de África sem que tal seja fruto da manutenção de contactos concretos entre as duas cortes. Para Larsen, em concreto, D. Afonso V continua assim uma política iniciada pelo Infante D. Henrique.
Carta de Afonso V ao Rei Cristiano da Dinamarca (manuscrito original)
Refira-se contudo que não é absolutamente claro o fluxo de comunicações entre Portugal e a Dinamarca, não sendo de todo de afastar que o «Infante» referido por Zurara (e a quem Valarte se dirige) possa também ser o Infante D. Pedro «das Sete Partidas», pois a Dinamarca foi uma das cortes por onde passou e além do mais participou com Eric da Pomerânia (tio do rei Cristovão) e o Sacro Imperador Romano-Germânico Sigismundo na guerra contra os Turcos, tendo sido agraciado com o marquesado de Treviso✠ DE CASTRO, A. D., Resumo historico da vida, acções, morte, e jazigo do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra..., [s.l.]: Typ. na Rua dos Lugares, 1843, p. 9. 176. Um pormenor importante e que remete para a utilização da expressão «...parente e irmão caríssimo...» por D. Afonso V é que existiam de facto relações familiares recentes entre as cortes (e mais recentes ainda, obviamente, considerando os Infantes da Ínclita Geração): o referido rei Eric da Pomerânia casou com a Princesa Filipa de Inglaterra, filha de Henrique IV e com o mesmo nome que sua tia, D. Filipa de Lencastre, o que adiciona toda uma proximidade familiar por afinidade que as estritamente sanguíneas não fariam adivinhar✠ LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 25–28. 177, proximidade essa que sem dúvida facilitaria a partilha da informação recolhida – como o livro de Marco Polo e a passagem ártica para as Índias✠ CURTO, História dos Portugueses na Etiópia (1490-1640), p. 60–70. 178.
Toda esta análise da relação entre as cortes de Portugal e Dinamarca leva-nos a um dos tópicos mais explorados e que é, de longe, o que motiva a maior parte das obras consultadas sobre o tema: a expedição conjunta aos Mares do Norte, exploração da Gronelândia e chegada ao continente norte-americano (a «Terra Nova»). Que a expedição existiu está documentado: existe uma carta do burgomestre de Kiel ao rei Cristiano III em 1551 a informá-lo de que a expedição ocorreu, e que ocorreu a pedido do rei de Portugal (D. Afonso V) com o objectivo de encontrarem novas terras e ilhas no Mar do Norte✠ LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 31–33. 179. Este documento é fundamental para compreender a restante argumentação de Larsen, argumentação essa que por completa e relativamente precoce é ainda hoje utilizada como fundamento para crítica ou concordância, e que por isso passo a resumir nos seus pontos essenciais✠ LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, passim. 180: após a conquista de Ceuta inicia-se um plano de exploração marítima, coordenado pelo Infante D. Henrique, que tem como objectivo o avanço através do Atlântico Sul com o objectivo de chegar ao Oriente; esse avanço é contudo relativamente lento pois aquando da morte do Infante em 1460 ainda falta metade da distância até ao Cabo da Boa Esperança, o que leva a que se explore a possibilidade de descobrir uma rota pelo Atlântico Norte.
Com esse objectivo em mente é contactado o rei Cristovão I e feito um pedido específico para que seja preparada uma expedição para tal fim, pedido que é favoravelmente atendido: é enviada uma expedição capitaneada por Diderik Pining, pilotada por João Scolvus e – e este ponto é o que maiores dúvidas levanta – com a participação de João Vaz Corte-Real e Álvaro Martins Homem como enviados de D. Afonso V. Esta expedição chega a Gronelândia e à Terra Nova, e após chegarem de novo a Portugal Corte-Real e Martins Homem escrevem um relato que foi perdido mas que terá tido ampla circulação no seu tempo.
Mapa da Terra Nova e Labrador feito pelo cartografo português Fernão Vaz Dourado em 1576. (Wikimedia Commons)
As linhas principais de sustentação desta teoria resume-as Laurence Larson✠ LARSON, Laurence M., Did John Scolvus Visit Labrador And New-Foundland In Or About 1476?, Scandinavian Studies and Notes, p. 81–89, 1922, p. 83–86. 181: a existência de provas documentais que contêm referências a uma viagem feita por um piloto sueco ou norueguês à região do Labrador no século XV (o globo de Gemma Frisius, o globo de Roue), a carta do burgomestre de Kiel já mencionada, a referência em 1553 que faz Francisco López de Gómara, padre espanhol, de que João Scolvus foi o primeiro a avistar o Labrador, várias referências inglesas à viagem de Scolvus, isto para mencionar apenas as mais antigas; ora isto não prova o envolvimento português, e para isso Larsen encontra na obra de António Cordeiro a referência essencial, ao descrever que Corte-Real e Martins Homem receberam cargos nos Açores em 1447 por terem descoberto a «Terra do Bacalhau».
A questão da presença dos portugueses é talvez a questão fundamental, pois que existiu uma expedição, e que essa expedição foi proposta pelo rei de Portugal, parece ter suficiente apoio documental. Aqui a credibilidade da obra de Cordeiro é um ponto chave. Para autores como Henry Harrisse, Cordeiro usa de liberdades excessivas com as fontes e comete erros nas datações que são facilmente identificáveis; Laurence, na sua análise crítica dos argumentos de Larsen e críticas de Harrisse, conclui que existem provas suficientemente fortes para suportar a ideia da presença de portugueses na expedição.
Já na década de 70 do século passado Morison✠ MORISON, Samuel Eliot, Portuguese voyages to America in the fifteenth century, [s.l.]: Octagon Books, 1965, p. 38–41. 182 ataca a tese de Larsen a toda a linha: apenas o documento do burgomestre, escrito oitenta anos depois, menciona Portugal, ao contrário dos relatos coevos que nunca referem essa ligação; esse pedido seria difícil de compreender pois D. Afonso V não desejaria incentivar a rivalidade de mais um rei; a enseada dos «Três Irmãos» e os nomes relacionados com João Vaz existentes na Gronelândia devem ser fruto do tributo dos seus dois filhos.
As críticas de Morison são legítimas, e existe de facto muito de circunstancial em alguns dos argumentos usados por Larsen: não é certo que a presença de determinados nomes em determinados mapas signifique a existência da expedição em causa, podendo ser explicáveis por viagens posteriores de outras formas tão ou mais verosímeis; dito isto Morison não explica qual a razão para a carta do burgomestre de Kiel, mesmo que escrita oitenta anos depois, referir de forma tão explícita a participação portuguesa na expedição, em especial quando no restante argumentário tende a reduzir significativamente a relevância da carta de D. Afonso V e a minorar qualquer contacto mais que superficial entre as duas cortes; estes dois factores – a carta de D. Afonso V e a carta do burgomestre de Kiel – eram desconhecidos quando Harrisse expôs os seus argumentos iniciais, e se sem eles o somatório de referências esporádicas é simples de descartar, com eles a questão ganha novo fôlego.
Outras possíveis viagens, como a de João Fernandes ao Lavrador, que para Morison foi uma localidade da Gronelândia que os navegadores estenderam para o território norte-americano.✠ Ibid., p. 55. 183 Já as viagens de Gaspar Corte-Real em 1501 são aceites sem reservas, até pelo amplo suporte documental, de tal forma que a Terra Nova é descrita como uma província periférica do crescente império português✠ Ibid., p. 72. 184. Seja como for estas viagens já são feitas sem que se conheça qualquer relação com qualquer corte escandinava, pelo que as menciono apenas como nota final desta secção.
A carta de D. Afonso V é a última prova documental inegável da relação entre Portugal e a Dinamarca, e a expedição de Valarte (cuja veracidade não é um facto inegável, como se viu) e a expedição conjunta à Terra Nova (cuja própria existência se pode pôr em causa) os dois momentos de acção conjunta que se conhecem. A partir desse ponto as viagens pelos mares do norte fazem-se já sem ligação a qualquer corte escandinava, e a descoberta do caminho para a Índia dando volta a África fazia dessa empresa algo de menos premente: com o muito que tinham a fazer os portugueses não procuram mais manter relações com os reis da Dinamarca e Noruega✠ LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 112. 185.
O mesmo acontece em relação à Dinamarca e África: se praticamente todas as obras referem o episódio de Valarte como a primeira descrição do contacto escandinavo com África também referem que se tratou de algo isolado, de um «brillant prélude suivi d’un vide absolu»✠ OLSEN, C., Le Danemark et l’Afrique noire, Revue française d’études politiques africaines, v. 42, p. 46–66, 1969, p. 46. 186, que só vai ter algum tipo de continuação na segunda metade do século XVII com a criação da Costa do Ouro Sueca, posteriormente conquistada pela Dinamarca como consequência da guerra existente entre os dois países nórdicos✠ Ibid., p. 48–49. 187. Estamos já num período bastante diferente, pautado por um colonialismo de feição moderna que vai envolver a Dinamarca no comércio de escravos até ao século XIX✠ JUSTESEN, Ole, Danish settlements on the gold coast in the nineteenth century: An outline, Scandinavian journal of history, v. 4, n. 1-4, p. 3–33, 1979, p. 17–19. 188.
Quando em 1640 se nomeiam «... embaixadores junto das potências do Norte, incumbidos de restaurar com ellas as antigas relações de paz e commercio...»✠ CANAVARRO, Pedro Manuel Guedes de Passos, Portugal e a Dinamarca durante a restauração: relações diplomáticas: 1640-1668, [s.l.]: Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos Históricos, 1967, p. 62. 189 está-se a utilizar uma fórmula diplomática, mas conforme visto existiria substracto suficiente para que pudesse ser dita com toda a propriedade, embora a documentação consultada me leve a afirmar que por alturas dos acontecimentos da Restauração já nem sequer uma ténue lembrança existiria das relações existentes no século XV.
Les fondations de la civilisation atlantique ont été posées pendant le Moyen Age en Europe. Atlantique à proprement parler, la civilisation ainsi élaborée ne l’est devenue qu’a partir du début de l’expansion portugaise. C’est pourquoi la période entre les premières décennies du XVe siècle et les dernières du XVIIIe est celle de la formation ou de origines de la civilisation atlantique.
A viagem de Valarte é descrita em poucas páginas por Zurara, mas como muitas outras fontes primárias tem em cada parágrafo referências fundamentais para a compreensão do tempo e do espaço onde se desenrola, referências essas que por diminutas que possam parecer permitem-nos traçar um quadro que aborda as motivações pessoais, políticas, comerciais e militares dos intervenientes.
Fazer um resumo de todas as considerações já feitas seria tão inútil como desnecessário, pelo que nestas linhas finais gostaria de focar o que de mais essencial se escreveu: a viagem de Valarte está inserida num contexto de expansão portuguesa da costa africana durante a regência do Infante D. Pedro e dinamizada pelo Infante D. Henrique, feita sobretudo com tripulações portuguesas ligadas à Ordem de Cristo da qual D. Henrique é mestre mas já numa altura onde o contacto com mercadores e navegadores estrangeiros começa a ser regular e contratualizado. As causas dessa expansão são muitas e complexas e incluem tanto um arraigado espírito de cruzada contra o Islão – em qualquer continente – que busca em Prestes João um possível aliado como a procura de ouro, escravos e outros produtos que circulam pelo Norte de África. A conflictualidade latente no relacionamento com os nativos revela ainda uma fase da expansão onde o filhar de cativos é prática comum, algo que vai no entanto mudar precisamente em meados do século XV com a compreensão de que uma política de relacionamento comercial é mais benéfica, relacionamento esse que será tanto mais possível quanto se compreender a estrutura de relacionamento político e hierárquico das comunidades jalofas e mandingas: a morte de Valarte é em boa parte o resultado dessa falta de compreensão.
A viagem de Valarte é ponto de partida para a análise da presença de Laaland anos depois e no que isso significa em termos de uma aparente regularidade de contactos entre duas cortes distantes. Como se viu a questão da expedição conjunta é um ponto complexo em termos historiográficos e longe de uma resolução, sendo que a carta de D. Afonso V e a do burgomestre de Kiel, lidas em conjunto, constituem a mais sólida argumentação em favor de uma política de contactos próximos durante um determinado período de tempo.
Assumindo uma perspectiva mais estrutural estou em crer que o certo exotismo desta relação é, contudo, apenas superficial. Uma leitura geográfica (essa geografia que para Braudel «... deixa de ser um valor em si mesma para se tornar um meio, ajudando a reencontrar as mais lentas das realidades estruturais e a organizar uma perspectivação segundo uma linha do mais longo prazo...»✠ BRAUDEL, O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II, p. 33. 190) não nos deve fazer limitar Portugal ao «Mediterrâneo Atlântico», pois também Braudel, ao reutilizar a expressão de Chaunu, refere que existe outro Atlântico, esse mais vasto, o «Atlântico dos Portugueses»✠ Ibid., p. 253. 191, no qual o relacionamento com outros países de tradição marítima não será à partida de estranhar.
Portugal, entre o Atlântico e o Mediterrâneo, onde o mar é «...o mais poderoso factor de relações geográficas remotas...»✠ RIBEIRO, Orlando, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, Coimbra: Coimbra Editora, 1945, p. 158–159. 192, está historicamente ligado a processos de longa duração tanto de cariz mediterrânico como atlântico✠ CUNLIFFE, Barry W, Facing the ocean: the Atlantic and its peoples, 8000 BC-AD 1500, Oxford; New York: Oxford University Press, 2001, p. vii. 193. É com esta perspectiva – com esta longue durée de feição atlântica – que se enquadra com naturalidade o interesse português no Atlântico Norte, e com base nesse interesse o fortalecimento de relações com a corte dinamarquesa.
O espírito de cruzada – presente em Portugal, sim, mas mais genericamente europeu e reaceso com a queda de Constantinopla – tornam a vinda de Valarte uma ocorrência tão possível como a conhecida vinda posterior de Laaland, essa plenamente documentada. É na confluência destas duas linhas (os contactos atlânticos como algo de natural e as várias provas documentais que provam um contacto e a presença de naturais escandinavos em empresas portuguesas) que encontro razões para não duvidar da veracidade da viagem de Valarte (com as devidas reservas em termos da utilização de toda uma série de topos literários por Zurara, obviamente), que além do mais apresenta uma consistência assinalável com o que outras fontes nos permitem ter como verdadeiros.
LARSEN, Sofus, Dinamarca e Portugal no século XV, Lisboa: Biblioteca Nacional, 1983, p. 45.
Obra essa que é ela própria envolta num certo mistério: traduzida por Jaime Cortesão na década de vinte do século passado foi vítima indirecta da participação do então director da Biblioteca Nacional na revolta contra a ditadura militar de Fevereiro de 1927 que implicou a demissão de Jaime Cortesão; a obra só foi publicada já na década de oitenta com base nos poucos exemplares encontrados, ainda empacotados e nunca circulados.
Até porque existe carta de D. Afonso V ao rei Cristiano I da Dinamarca que atesta a sua existência, ao contrário do vazio documental relativo a Valarte, como será analisado mais à frente.
LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 13.
ZURARA, Gomes Eanes de, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, [s.l.]: J.P. Aillaud, 1841, p. 465.
LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 13.
BARROS, João de, Década primeira da Ásia de João de Barros. Dos feitos que os portugueses fizeram na conquista e descobrimento dos mares e terras do Oriente, Lisboa: Jorge Rodrigues, 1628, liv. I, Cap. XV, fl. 29.
ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. 9.
COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 126–128.
de CARVALHO, Margarida Barradas, apud COSME, João, Os cronistas, in: MEDINA, João (Ed.), História de Portugal: os Descobrimentos (II), Amadora, Portugal: Ediclube, 1994, v. 5, p. 170.
Ibid., p. 173.
Ibid., p. 175.
BOXER, C. R, O Império Marítimo Português, 1415-1825, Lisboa: Edições 70, 1992, p. 45–47.
COELHO, António Borges, História de Portugal: Largada das Naus, Lisboa: Caminho, 2012, p. 90.
A descrição de Borges Coelho segue de perto a vivida descrição de Rui de Pina na sua Crónica d’El-Rei D. Afonso V, pelo que ambas são utilizadas de forma mais ou menos indiscriminada. A selecção das fontas foi feita por achar que a síntese de Borge Coelho é especialmente adequada, dado o estilo do autor, à dinâmica dos eventos.
COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 96–98.
MORENO, Humberto Baquero, A Batalha de Alfarrobeira: antecedentes e significado histórico, [s.l.]: UC Biblioteca Geral 1, 1979, p. 9.
PINA, Rui de, Chronica deel-rei D. Affonso v, Lisboa: Bibliotheca de Classicos Portuguezes, 1901, p. 62.
COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 106.
SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), 3. ed. Lisboa: Editorial Verbo, 1980, p. 64.
MORENO, A Batalha de Alfarrobeira, p. 149.
MORENO, A Batalha de Alfarrobeira, p. 260.
Ibid., p. 264.
Ibid., p. 323–325.
D. Álvaro Vaz de Almeida, companheiro de sempre de D. Pedro, cavaleiro da Jarreteira, irá cair nos campos de Alfarrobeira: «... eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assi como vo-la tive em vida […] Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas […] que em breve despedio a alma de si para ir acompanhar a do Infante como lhe tinha promettido...» PINA, Chronica deel-rei D. Affonso v, p. 79–80, 102–103.
MORENO, A Batalha de Alfarrobeira, p. 390.
Ibid., p. 357.
Ibid., p. 518–520.
PINA, Chronica deel-rei D. Affonso v, p. 71.
COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 111–113.
A introdução da Crónica diz-nos que «entre os primeiros descobridores mais de cinquenta eram criados do infante» ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. XI.
COELHO, História de Portugal: Largada das Naus, p. 126–128.
SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 81–85.
Ibid., p. 138–140.
Ibid., p. 174–175.
ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. 441.
RYING, Bent, Denmark: History., Copenhaga: Royal Danish Ministry of Foreign Affairs, 1988.
Ibid.
EHRENSVÄRD, Ulla, Cartographical Representation of the Scandinavian Arctic Regions, Arctic, v. 37, n. 4, p. 552–561, 1984, p. 552.
Refira-se de passagem que estas incursões chegam a território africano, embora seja discutível se este conhecimento do mundo mais meridional tenha tido efectiva transmissão. BRINK, Stefan; PRICE, Neil, The Viking World, [s.l.]: Routledge, 2008, p. 467–469.
RYING, Denmark.
A descrição da conquista de reinos inteiros é comum na literatura da época: note-se como o Rei Artur conquista a Europa praticamente toda e é coroado Imperador, e por outro lado a criação de linhagens reais com origens mais ou menos exóticas não é também de estranhar (cf. João de Barros e a Crónica de Clarimundo, com a linhagem real portuguesa a descender dos Imperadores da Hungria – BARROS, João de, Chronica de Emperador Clarimundo, donde os Reys de Portugal descendem, 4a imp. Lisboa: Francisco da Sylva, 1742.)
ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. 441.
SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 138–140.
CORTESÃO, Jaime, A política de sigilo nos descobrimentos: nos tempos do Infante D. Henrique e de D. João II, [s.l.: s.n.], 1960, passim.
PORRO GUTIÉRREZ, Jesús Ma, Una antinomia protorrenacentista: secreto de estado y divulgación en los descubrimientos luso-castellanos. La cartografía (1418-1495), Anuario de estudios americanos, v. 60, n. 1, p. 13–40, 2003, p. 20.
COSME, João; MANSO, Maria de Deus, Estudos de história da expansão portuguesa, Lisboa: Edições Colibri, 1992.
VILHENA, Maria da Conceição, O Preste João: mito, literatura e história, ARQUIPÉLAGO. História, v. 5, p. 627–649, 2001, p. 627–628.
ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, cap. XVI.
Ibid.
CURTO, Pedro Mota, História dos Portugueses na Etiópia (1490-1640), Porto: Campo das Letras, 2008, p. 60–70.
Ibid., p. 80.
BETHENCOURT, Francisco; CHAUDHURI, Kirti, História da Expansão Portuguesa, [s.l.: s.n., s.d.], p. 96–97.
CURTO, História dos Portugueses na Etiópia (1490-1640), p. 192–218.
COSME, Os cronistas, p. 28.
SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 164.
Ibid., p. 150.
BRAUDEL, Fernand, O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II, 2a. ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995, p. 250–253.
SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 150.
COSME, Os cronistas, p. 23.
Ibid., p. 28.
ALBUQUERQUE, Luís de; DOMINGUES, Francisco Contente, Dicionário de história dos Descobrimentos portugueses, Lisboa: Caminho, 1994, p. 83.
Hoje em dia também conhecidos por wolofs ou uólofes, embora jalofos pareça ser o termo documentado com maior antiguidade
Refira-se a visita do «Rei Jalofo Bomaim Gilem» descrita por João de Barros, soberano recebido por D. João II, baptizado e tragicamente «mal morto» por Pero Vaz, num contexto de estabelecimento de alianças políticas pelo Príncipe Perfeito que é um seguimento destes contactos iniciais (BARROS, Década primeira da Ásia de João de Barros, liv. III, Cap. 6, fl. 46.)
ALMADA, André Alvares d’, Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo-Verde, [s.l.]: Typographia commercial portuense, 1841, p. 100.
BOULÈGUE, Jean, Les royaumes wolof dans l’espace sénégambien: XIIIe-XVIIIe siècle, [s.l.]: KARTHALA Editions, 2013, p. 19–20.
SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 153–154.
BOXER, O Império Marítimo Português, 1415-1825, p. 40–41.
COSME, João; MANSO, Maria de Deus, Traços da Economia Cabo-Verdiana (1462-1521), in: Estudos de história da expansão portuguesa, Lisboa: Edições Colibri, 1992.
MAGALHÃES, Joaquim Romero de, As Estruturas de Produção Agrícola e Pastoril, in: MATTOSO, José (Org.), História de Portugal: No alvorecer da modernidade (1480-1620), Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, v. 3, p. 280–281.
MAGALHÃES, Joaquim Romero de, A Estrutura das Trocas, in: MATTOSO, José (Org.), História de Portugal: No alvorecer da modernidade (1480-1620), Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, v. 3, p. 336–338.
BOXER, O Império Marítimo Português, 1415-1825, p. 46–47.
TYMOWSKI, Michał, Why Did Valarte Die? Death of a Danish Knight During Expedition to West Africa in Mid 15th Century, Acta Poloniae Historica, n. 98, 2008, p. 71.
ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. 445.
TYMOWSKI, Why Did Valarte Die?, p. 71–72.
SERRÃO, História de Portugal: A Formação do Estado Moderno (1415-1495), p. 168.
NUNES, Irene Freire (Org.), A Demanda do Santo Graal, Lisboa: Impr. Nacional-Casa da Moeda, 1989, p. 173.
GUIMARÃES, Jerry Santos, Memória e Retórica: “Mouros” e “Negros” na Crônica da Guiné (Século XV), Dissertação de Pós-Graduação, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Vitória da Conquista, 2012, p. 144.
ZURARA, Chronica do descobrimento e conquisita de Guiné, p. 10.
Ibid., p. 447.
TYMOWSKI, Why Did Valarte Die?, p. 73.
ALBUQUERQUE; DOMINGUES, Dicionário de história dos Descobrimentos portugueses, p. 262–264.
TYMOWSKI, Why Did Valarte Die?, p. 74.
BRAGA, Paulo Drumond, Casamentos reais portugueses: um aspecto do relacionamento ibérico e europeu (séculos XII-XIV), Revista da Faculdade de Letras: História, v. 15, n. 2, p. 1531–1538, 1998, p. 1532–1533.
Ibid., p. 1534.
HØRBY, Kai, The fate of the descendants of christoffer I. Aspects of Danish politics 1252–1319, Scandinavian Journal of History, v. 4, n. 1-4, p. 207–229, 1979, p. 207–209.
BRAGA, Casamentos reais portugueses, p. 1536.
SMITH-DAMPIER, Eleanor Mary, Danish Ballads, Cambridge: Cambridge University Press, 2013, p. 22–34.
Ibid., p. 33.
BRAGA, Casamentos reais portugueses, p. 1536.
Ibid., p. 135.
Ibid.
LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 15–16.
EHRENSVÄRD, Cartographical Representation of the Scandinavian Arctic Regions, p. 552.
LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 19.
Ibid.
NASCIMENTO, Aires Augusto (Org.), Livro de Arautos, Lisboa: [s.n.], 1977, p. 33–46.
DE CASTRO, A. D., Resumo historico da vida, acções, morte, e jazigo do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra..., [s.l.]: Typ. na Rua dos Lugares, 1843, p. 9.
LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 25–28.
CURTO, História dos Portugueses na Etiópia (1490-1640), p. 60–70.
LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 31–33.
LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, passim.
LARSON, Laurence M., Did John Scolvus Visit Labrador And New-Foundland In Or About 1476?, Scandinavian Studies and Notes, p. 81–89, 1922, p. 83–86.
MORISON, Samuel Eliot, Portuguese voyages to America in the fifteenth century, [s.l.]: Octagon Books, 1965, p. 38–41.
Ibid., p. 55.
Ibid., p. 72.
LARSEN, Dinamarca e Portugal no século XV, p. 112.
OLSEN, C., Le Danemark et l’Afrique noire, Revue française d’études politiques africaines, v. 42, p. 46–66, 1969, p. 46.
Ibid., p. 48–49.
JUSTESEN, Ole, Danish settlements on the gold coast in the nineteenth century: An outline, Scandinavian journal of history, v. 4, n. 1-4, p. 3–33, 1979, p. 17–19.
CANAVARRO, Pedro Manuel Guedes de Passos, Portugal e a Dinamarca durante a restauração: relações diplomáticas: 1640-1668, [s.l.]: Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos Históricos, 1967, p. 62.
BRAUDEL, O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Filipe II, p. 33.
Ibid., p. 253.
RIBEIRO, Orlando, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, Coimbra: Coimbra Editora, 1945, p. 158–159.
CUNLIFFE, Barry W, Facing the ocean: the Atlantic and its peoples, 8000 BC-AD 1500, Oxford; New York: Oxford University Press, 2001, p. vii.